terça-feira, dezembro 12, 2006

trecho de O cavalo perdido, de Felisberto Hernández seguido de pensamentos

"Celina nem sempre entra na lembrança como entrava pela porta de sua sala: às vezes entra já estando sentada ao lado do piano, ou no momento de acender o abajur. Eu mesmo, com meus olhos de agora, não a recordo: recordo os olhos que naquele tempo a olhavam; aqueles olhos transmitem o sentimento em que as imagens se movem. Nesse sentimento há uma ternura original. Os olhos do menino estão assombrados, mas não olham fixamente. Celina tão logo esboça um movimento, já termina de fazê-lo; mas esses movimentos não roçam nenhum ar em nenhum espaço: são movimentos de olhos que recordam."
Tenho pensado na memória, e de como ela vive no presente, com todas suas distorções, ficcionalizações e outros artíficios de se criar a própria história através de matéria concreta, a construção da mitologia pessoal, ou uma busca (muitas vezes inútil) de sentido para tudo isso. Este conto/novela está me tocando de uma forma estranha, é lindo, mas um pouco angustiante, ainda mais quando ecoa em minhas próprias angústias. No conto (vou chamar de conto) o narrador fala de sua relação com a sua professora de piano, quando ainda era criança. E fala principalmente de sua relação com os objetos. Os objetos são dotados de uma vida que só a imaginação de uma criança pode lhes emprestar. Estes objetos guardam segredos que o narrador quando ainda era criança tentava decifrar, e agora, bem mais velho, os revisita atrás de sentido. O narrador fica tão perdido nessas memórias que vê o presente escapar, e sua única ligação com o presente é o ato de escrever suas memórias. A minha angústia é tentar lembrar da minha infância com essa riqueza de sensações e não conseguir. Eu não sei como eu era quando ainda criança. Por isso fiquei emocionado quando, no ano passado, minha mãe achou uma carta que escrevi para meu pai quando eu tinha oito anos de idade. Esta carta é um pedaço de mim que não consigo achar na memória.

Querido Papai,

Você é a raiz da minha vida.
Quando nasci me deu toda assitência possível.
Você sempre foi amoroso e afetuoso comigo. Fui crescendo e você foi ficando cada vez mais amigo e mais atencioso.
Você sempre foi o mesmo: cabelo preto, olhos castanhos, pele morena, forte e saudável.
Hoje estou com 8 anos e já começo a tomar conta de mim mesmo.
Nunca deixei de gostar de você. Só que às vezes fico muito sentido, pois não gosto de você bravo nem quando briga comigo.
Papai, você nunca me deixou só.
Sempre me ajudou.
Muito obrigado por tudo

Gosto muito de você, pai.

Guilherme

3 comentários:

Celinho disse...

Acho que vc procurar esse sentido e se emocionar ao ler a carta ja é descobrir muita coisa que esse objeto traz pra vc..

Quelany disse...

q filho gracioso q vc era! q poético!
;)

como seu espírito de escrever mudou... é mto diferente do blog anterior...

tb comecei a me desencontrar nos últimos posts...

senti falta um laconismo mais poético...

tb achei vc aqui mais descritivo, mais narrativo...

mas aí no alumbramentos encontrei sua leveza mais contida, sua poesia deliciosa a la all that...

tê disse...

que graça fudge :)
muito sério e muito sincero.
ah outras coisas tb!
uma graça...
beijo