segunda-feira, dezembro 01, 2008

segunda-feira, outubro 20, 2008

tragédias

a cobertura midiática de eventos criminosos é sempre espantosa. Principalmente de eventos onde a identificação de todos é mais fácil: um casal comum, com um fim de namoro corriqueiro, mas que uma das partes não aceita tão bem. Todo mundo pode se relacionar a isto. Mas, de repente, algo extremo - reféns, ameaça, morte. Com essa parte não nos identificamos, ao menos conscientemente, ou queremos pensar que não. Esse é o ponto: qualquer um é capaz de atos extremos. Qualquer um. Uma frase do Terêncio, dramaturgo romano de muito muito tempo atrás, sempre volta a minha mente, sempre causa um efeito de estar diante de muita sabedoria: sou humano, nada do que é humano me é estranho.

A sensação que fica, no final das contas, é que toda essa cobertura da mídia é a tentativa de dar sentido a algo tão díspar, tão "desumano". Admitir que o mundo é imprevisível é amedrontador. Admitir que o ato dele é totalmente humano também é amedrontador. É preciso pintá-lo como um monstro, como alguém que nunca vamos ver ao olharmos num espelho.

quarta-feira, outubro 15, 2008

o lugar que moro

Qual a mensagem dum apartamento sem móveis? Um apartamento com caixas cheio de coisas que não se sabe o dono, que não tem lugar, mas que ocupa o mesmo espaço a mais de dois anos? Uma gaveta sem cômoda ou armário que guarda dvds, uma mesa de bar segurando uma televisão, uma outra caixa coroada por um video-game.

Um apartamento sem alma é um lugar provisório. Não há móveis porque a qualquer momento pode se ir embora, esse lugar é um limbo, um espaço transitório entre o antes e o depois.

Mas o antes é algo que nem se lembra mais, de tão longe. O depois é ainda mais indefinido, uma névoa cinza, ou azul ou negra ou branca, qualquer cor que represente o dia.

Moro num lugar pronto para a mudança - se decidir ir embora agora, tudo é muito fácil de se arrumar. Moro num lugar que diz: não viemos pra ficar, não sabemos pra onde ir.

segunda-feira, setembro 29, 2008

noite

Considerei o riso entre estranhos
Uma dádiva divina,
Como se contivesse mais do que se via

(como se fosse possível a água,
Ao transbordar de um copo,
Não escorrer pelas laterais
E sim subir
E continuar subindo,
Uma coluna de firme fragilidade)

Considerei este riso e mais:
Os meio-abraços,
Confissões com hálito de álcool,
Gestos desmedidos
De leveza premeditada

mas as metáforas
mataram a noite

Tudo que eu escondia
Apareceu em meu olhar
Quando o encontrei num
Esfumaçado espelho:
Não me reconheci
E pensei estar vendo o mundo
Ao contrário

sexta-feira, setembro 26, 2008

para ela

Faz alguns meses que não escrevo aqui. Nunca foi algo que me tirou o sono, mas talvez valeu um bocejo a mais ou a menos - praticamente parei de escrever e o blog parado é um dos sintomas (ou consequências). Mas, lendo o blog da minha querida (que achava também estar parado), vi que ainda há motivos para escrever.

Claro que não me veio nada genial à mente, nem uma enchurrada de poesia inundou meu quarto e levou meus livros pelo bueiro. Claro que não vou perder noites de sono nem os sonhos vão perder sua qualidade de noite, escuros em seus mistérios de memórias sem começo nem meio.

Mas o importante é que há um motivo muito claro e simples e bonito e justo e exato e etc - escrever algo porque ela gosta das minhas palavras, escrever algo porque entre tantas, ela escolheu as minhas.

então escrevo esse grande nada, cheio de tanta coisa.

terça-feira, maio 20, 2008

velharias (cherchez la femme)

Uma surpresa que ainda não aconteceu. Vento que precede chuva ou uma carta sem destinatário, o remetente rabiscado como se a casa ainda fosse esboço. Um arquiteto não saberia projetar esta casa. Talvez um escultor brincando com areia e água do mar. Talvez uma criança empinando pipa, alguém ouvindo um outro, uma música quieta e incessante que ainda não sei cantar. Talvez ela, mesmo que eu espere e espreite esquinas, será uma surpresa.

segunda-feira, abril 28, 2008

velharias (poema que escrevi para um amigo -2006)

poema que escrevi para um amigo


quais migalhas de pele
te alcançaram, e,
na confusão dos teus poros,
se confundiram com a tua própria,
folhas de outono
perdidas entre o ciclo das estações?

qual o círculo vertiginoso da
rotina, fixa, que esconde
seu movimento na mobilidade
dos olhos distantes e secos?

talvez os passos sejam esses
dos seus pés de pássaro
(a asa ou o vento quebrado?)

ou da mão hesitante que
tenta derrubar o vínculo
da violência silenciosa
e sutil,

mas que pára na delicadeza
do tempo e da espera.

domingo, abril 20, 2008

velharias

vontades # 3

quando do chão brota o raio
dos teus passos curtos

- pequenos sustos em lugares escuros –

cria-se em minha memória
um silêncio exato –

logo cessado por meu suspiro,
uma longa onda a se quebrar

terça-feira, abril 15, 2008

mais velharia

pedido ao tempo

há de ser ouvido por mim
seus compassos escuros, no estalo,
e claros, no silêncio

há de ser absorvido nos poros
as gotas de esquecimento
e estrelas de memória
que correm em suas lacunas

há de ser construído uma enorme
estalactite ou castelo de areia,
iguais na forma
e distintos na pedra,
suas duas faces

há de ser exato nas mãos
e transbordante nos olhos,
provendo outra pele
a cada piscar de pálpebra
(acendendo e apagando o mundo,
testando sua continuidade)


há, por fim, de emprestar
sua constância aos meus gestos,
aos meus gritos,
e sua fluência à verborragia
de meu silêncio
(e que se desfaça em seu fio
outro fio, mas fino e frio,
que ligue meus olhos a todos os nomes)

sábado, março 29, 2008

na falta de tudo, o antigo

resolvi vasculhar a velharia e mostrar coisas antigas, que escrevi há muito, quando eu era outro.

começando com um texto duma seriezinha chamada Cherchez la femme (pequenos retratos)

***

Seus olhos têm qualidade de noite: se mostram ao esconder, firmes como a coluna de luz da lua à minha janela. E não qualquer noite, algo nítido como o ar após a chuva. O corpo anda em linha reta, pois ignora as curvas do mundo, um quase flutuar. E, como a noite, é curiosa, argüi, questiona, te olha séria e depois sorri, como se tudo fosse uma grande brincadeira. Perguntariam-me: como qualidade de noite, se ela é dourada? Eu diria que não souberam a ver – tem muito de noite no sol, e tudo contém também aquilo que esconde

quarta-feira, março 05, 2008

na falta de tudo, trechos

Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño (os personagens falam sobre um sonho da ex-namorada):

"Era um sonho cheio de cores, com uma batalha no fundo, uma batalha que se distancia e que, ao se distanciar, arrasta consigo todas as interpretações. Mas Norman respondeu: sonhou com os filhos que não tivemos. Está me gozando, falei. Era esse o significado do sonho. A batalha que distancia, para você, eram os filhos que vocês não tiveram? Mais ou menos, Norman respondeu. Aquelas sombras que combatiam. E as cores? O que resta, Norman disse, a simples abstração do que resta."

terça-feira, fevereiro 26, 2008

na falta de tudo, nada

O silêncio já acompanha o tempo por meses. Quando há falta do novo, o velho se cansa. As palavras, gastas por repetição, ficam fora de foco. É olhar o mundo como se ele fosse um álbum de fotos antigas. É esperar que uma estação chegue antes do tempo.

(esses dias os pássaros cantaram na janela, e só assim percebi sua ausência de meses)


espero que tudo isso seja como aves migratórias.