Quarta-feira, Novembro 18, 2009

cais

Nem o primeiro beijo
se apaga,
nem o tempo toma rumo
até a paz
ou outros cais
quaisquer.

Qual começo quer?
Qual fim escolhe,
o do dia ou da noite?

Besteiras, maneira de dizer.
Tolices, Alices na Wonderland
que ninguém mais sente.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

cherchez la femme - pequenos retratos

Era ruiva como o incêndio que tentava apagar. Tinha olhos rápidos, como cavalos castanhos. Surgia sempre que em meus olhos explodiam faíscas, uma pequena aparição, um timing vacilante, porém tentador. Ela esperava a chuva, os rios, as lâmpadas amarelas de mercúrio. Ela sempre esperava. Na verdade nem sempre ela tentava apagar os incêndios.

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

cherchez la femme - pequenos retratos

Ela é branca (ela se acha muito branca). Talvez a única neve que conheci em vida. Ou muita luz. Ou cegueira. São muitos os pontos de vista, são muitos os meus olhos. E mesmo assim eles insistem em vê-la sempre de forma inédita (flocos de neve refletindo as cores do arco-íris, uma por uma).

Sábado, Outubro 24, 2009

Hilda Hilst

Ser terra
e cantar livremente
o que é finitude
e o que perdura.

Unir numa só fonte
o que souber ser vale
sendo altura.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Divagações sobre um cacto em forma de coração

Um coração de espinhos acende o centro da sala,
luz sobreposta nos poços de sombra,
penumbra escorrendo pela parede
feito um rio desalinhado.

Talvez fossem resquícios de sonhos,
antigos vícios, outras luzes,
outras paisagens.

(um coração em forma de cacto,
ou um pacto contra o deserto dos dias)

Talvez uma lembrança que ali nasce,
logo antes de acontecer.
Uma surpresa aguardando sua vez,
pequenas revoluções que não entram
nos livros de história.

Um coração de espinhos nasce no centro da sala,
e um dia nascerá como outra luz, vício saudável,
uma nova paisagem.

(os espinhos nada mais são que raios de luz
congelados em seu início,
resquício do tempo inerte e inacessível:
o Tempo)

Domingo, Outubro 18, 2009

poema antigo - Primeira indagação

Qual, a primeira saudade?
(se é que podemos numerá-las –
talvez tudo seja uma face da saudade,
da mesma saudade)

Qual é o ponto inicial, o primeiro
gesto ou palavra,
que desencadeia uma rede de sentimentos
que se encontram em um só?

Talvez o ato inaugural,
o primeiro foguete à lua,
a visão da terra azul,
a primeira bandeira no cume,
talvez sejam estes o primeiro crime:

estar fora de órbita
quando tudo ainda é alcançável,
saber que sentirá saudades.

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

Esboço para a história de Matias - parte 1

Se eu pudesse ter acesso, poderia ser apenas por alguns minutos, a como ela pensa e funciona. Como destrinchar um relógio, conhecer cada engrenagem, me habituar a elas, ver o que há por trás de cada peça, depois juntá-las, agora fazendo que o tempo seja outro. Deve haver uma ordem secreta das coisas, se um relógio for alterado, todos os outros se alterarão também, para sempre.

Matias correu pelo parque, querendo ser outro. Já havia uma semana que corria regularmente pelas manhãs, dando voltas e mais voltas, do ponto A ao B, voltando ao A e assim ia, rodando como um ponteiro, exato em toda sua tentativa de mudar, outra vida, outros ares. Brincava com os cachorros e sorria para as donas, que passeavam com suas longas pernas expostas ao verão. Mas era tudo mecânico, como um relógio.
Não importava quantas voltas desse, uma hora teria que voltar para sua casa. Corria o quanto dava, transpirava até derreter, menos si mesmo, se misturando a tudo e todos do parque, mas não havia fuga.
Em casa, olhava fixamente o computador. O editor de texto aberto, transcrevia a fala cadenciada do entrevistado, um fotógrafo social que agora falava de seu trabalho rotineiro. O casamento dos outros, a formatura do filho dos outros, o batizado, as bodas, o aniversário de cem anos da bisavó de alguém. Participando ao não participar da vida dos outros. Aos poucos, Matias percebeu que só escutava, não mais digitava as palavras do entrevistado.

Um biólogo realmente sabe das plantas? Pode saber de todos seus mecanismos, como se reproduzem, se alimentam, como conseguem sobreviver a um ambiente fértil ou hostil, tudo. Mas não acho que realmente saibam o que é uma planta. A vida da planta não se explica biologicamente. Um jardineiro sabe muito mais da vida do que um biólogo.

Deixou o computador, foi até o jardim da sua casa. João, que dividia a casa com Matias, havia acordado e já começara seu ritual diário: música alta, acompanhando a música com um péssimo inglês. Bom humor demais, quase euforia. Não era possível que fosse tudo sincero. Matias, com uma grande tesoura de jardinagem, caminhava para suas plantas, o que mais lhe dava prazer ultimamente. Cuidar das plantas. Nada tão objetivo, mesmo envolto em tanto mistério. Ali achava que exercia um certo controle. Se não controle, influência direta. Elas dependiam dele, ele dependia delas. Imaginava que o sentimento deveria ser parecido com o de ter um filho, mas não saberia. Não os tinha, a futura mãe de seu filho não poderia mais ser a futura mãe de seus filhos, não tinham mais nada, nem mais se olhavam nos olhos direito, quando se cruzavam nos bares comuns, nas ruas comuns aos dois. Voltar às plantas, se concentrar nas plantas. Elas precisavam dele, ele precisava delas.

Ela deve estar olhando através duma janela agora, para uma paisagem que passa e deixa algumas coisas. Ela pensa em mim, quando pensa em si, nas árvores que cortam a vista, sumindo e voltando? Todas as árvores a árvore. Todas a mesma árvore. Música nos ouvidos, flutuando dentro do ônibus, fugindo de algo, voltando para a outro. De qualquer maneira, para longe daqui. Preciso escrever para ela, falar das entrevistas, das plantas, das corridas matinais, das eleições, criticar o prêmio Nobel, perguntar de seu pai, falar de minha mãe, comentar das gérberas que morreram e das que vão nascer. Qualquer coisa, mas sei que não vou falar nada.

Matias enfiou a mão na terra fofa e a deixou ali por alguns instantes, sentindo o frio da terra contra o calor excessivo. João apareceu na janela e acabou com o silêncio reflexivo de Matias, ao cantar para ele um samba-canção, como se fosse a Julieta do alto da janela quem declamasse para um Romeu apaixonado lá embaixo. Matias riu.

mutação

só pensando (e lembrando) em como o mesmo sentimento vai mudando como um sonho, que dispensa regras de continuidade e lógicas simples. Um dia é cansaço, no outro saudade, depois raiva, aí volta saudade, aí é saco cheio, depois sorriso discreto, esperança, que vira luto. Isso nos dias que você consegue dar nomes e limitar o que está sentindo. Mas é constante e é um sentimento só.

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

Rastros

Como seguir rastros de tornados,
determinar início e fim,
encontrar caminho no caos,
que só o centro,
o olho (“The I of the hurricane”),
vê.

Tarefa impossível que a escrita
confunde em pistas falsas.
outras mãos escrevem a história,
não estas.
Outros olhos fixos no centro do giro,
não estes.
(quase uma comédia com Peter Sellers
ou uma foto de Koudelka –
estar fora do lugar como
o máximo do estar)

Como andar por ruas iguais,
entre adolescentes e executivos iguais,
todos com cabelos iguais e o mesmo olhar.
E o medo de tudo ser espelho ou
janela para um tempo dividido,
irreconciliável.

Um tempo em que eu não mais
me distanciasse, nem tivesse
o faro dum detetive livresco
ou qualquer herói eleito.
Este tempo quebrado,
de trechos de filmes
(imagens soltas sem sopro ou surpresa),
de frases perdidas, imperdoáveis
(Hamlet escalando a montanha mágica,
Leopold Bloom caminhando pelo Rio de Janeiro).
O Tempo que se pensava indivisível,
o maior e primordial átomo,
agora em estilhaços
(ou esteve despedaçado, ou estará,
quem sabe? Quem está fora do pesadelo
e realmente sabe?
Como aquela vez em que estive num jardim sem vento
ou na pedra que apontava para morros milhares de metros
abaixo.)

Pensar então fora do tempo
– impossível como perseguir tornados –
mas tentamos, eu tento.

E separo-me de todos os outros,
dos espelhos, do tornado, das janelas,
gerânios, guerras, gueixas, carros,
costas e mares, amores, peixes, flechas,
e choros.
Separo-me das chaves, das vistas, cheiros, dores,
dia-a-dia, poemas pela metade, noites e mortes
pela metade...
Tudo se misturando até perder os nomes,
as linhas divisórias, anti-geografia
da linguagem, anti-literatura
das bocas, o calar da história
dos ouvidos.

Até que desapareçam todos os rastros do tornado.
Quando a calmaria baixar sobre as cidades
e cegar os postes e faróis,
não haverá nem olho para que isso exista,
e o tempo voltará a reinar,
imperativo.

Sábado, Outubro 10, 2009

Mantra

Estar perdido nas próprias palavras,
quando se acorda logo de manhã e
o sol já desistiu da janela.
Nenhum traço de luz nos lençóis,
nem de voz no vão do quarto.

Cada vogal toma seu tempo
e erra.
Cada consoante interrompe o ar
e erra.

Errante entre o espaço exíguo,
(a vida às vezes venta leve
e violenta os olhos cansados)
exilado, exímio em não saber
estar, estando como pode,
até não mais caber em si.
Buscar um nós que não mais está...

Ao tatear palavras tatuadas no corpo,
no torso arqueante,
que respira a vida leve e a devolve
pesada, pesada.

Pé após pé,
o mantra que canta
enquanto a melodia
se cansa.

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

Robert Capa por Michael Mann

Comecei a postar no blog da livraria cultura

http://cultura.updateordie.com

Terça-feira, Outubro 06, 2009

"Cuántas luces dejaste encendidas" de Hugo Gutierrez Vega

Un amor sentencioso alzó la mano
y señaló el camino hacia lo incierto,
hacia lo que no fue, hacia esa nada
que en la mitad del pecho va latiendo
como el corazón falso de la vida, vuelto piedra
y la piedra en el campo va gritando.

La cantina y su rincón oscuro,
las palabras cansadas de rogarle,
el círculo dejado por la copa,
la pedida canción, el abandono
y ese perdido amor con el tequila
servido ya cuando la noche pide
sólo one for my baby and
one more for the road
.

Todo se junta en la canción dolida,
hay un stormy weather
y a la casa encendida volverán los amores;
ella regresa y si no regresara
intentar apagar todas las luces
será tarea emprendida por la muerte.
"El esplendor tan encendido antaño"
no volverá y no hay que entristecerse,
quedaron muchas luces encendidas
y se amanece siempre entre sus brazos.

Terça-feira, Setembro 29, 2009

pedido ao tempo

há de ser ouvido por mim
seus compassos escuros, no estalo,
e claros, no silêncio

há de ser absorvido nos poros
as gotas de esquecimento
e estrelas de memória
que correm em suas lacunas

há de ser construído uma enorme
estalactite ou castelo de areia,
iguais na forma
e distintos na pedra,
suas duas faces

há de ser exato nas mãos
e transbordante nos olhos,
provendo outra pele
a cada piscar de pálpebra
(acendendo e apagando o mundo,
testando sua continuidade)


há, por fim, de emprestar
sua constância aos meus gestos,
aos meus gritos,
e sua fluência à verborragia
de meu silêncio
(e que se desfaça em seu fio
outro fio, mas fino e frio,
que ligue meus olhos a todos os nomes)

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

Da janela do quarto

Da minha janela vejo,
em primeiro plano, a árvore,
nascida em solo insólito,
e, longe, onde a chuva cessa,
o prédio abandonado.

Mais do que a própria chuva,
inconstante em sua semelhança,
ligam-se os dois elementos enquadrados
na esquadria da janela:

ambos falam de um passado esfumaçado,
sente-se o abandono nas folhas
onde palavra nenhuma foi escrita,
e nos galhos, raízes aéreas, perdidas
no desterro do ar.

Sente-se vida no prédio abandonado,
nas plantas abismando o concreto,
vitória do abstrato, onde não havia
imaginação nem viço,
fantasmas do que ali já se passou.

Hoje a chuva fez muito, ligando para mim
as imagens que nunca vi, como se a janela
da sala fosse na verdade a de um trem,
que passa e esquece...

(a soma de dois elementos, somando
um terceiro, o escondido, o escuro
de dentro, um sumiço, um possível...)

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

Fome

Historinha contada no Mad Men dessa semana:

Algumas cobras podem ficar meses sem comer nada, mas quando conseguem alguma coisa, elas estão com tanta fome que sufocam enquanto estão comendo.

Domingo, Setembro 20, 2009

Troca

Substituir uma voz,
Raiz dos problemas e da ânsia.
Trocar um abraço por outro,
Novo, outras mãos que procuram
A mesma fome, insubstituível.

Outros olhos olhando o mesmo.
Novos passos conhecendo os pés
Cansados da instabilidade da água,
Buscando terra, querendo novas pistas
De vôo, marcando outras trilhas
Em areias cambiantes.

Outro peito onde pousará a cabeça
Cansada dos sonhos escuros,
(será que ainda sonha comigo?
- o rosto do passado no sem tempo
Do sono – eu a invadir camas estranhas)

E agora ao cruzar as ruas
De um novo labirinto,
Perdida ou encontrada na velha cidade
Que despertou de novo,
Nomeando cada árvore para outro ouvido,
Rindo dos cachorros trôpegos,
Esquivando-se dos carros bêbados,
Sorrirá por um amor escolhido
Entre milhões, entrevado até os postes
Iluminarem estas novas decisões.

(Quantos relógios são necessários
Para se apagar um rosto?
Quantos sóis boiando no céu
Para se escurecer uma voz?
Quantas estradas para enterrar
Os pés cansados, as mãos hesitantes?)

Tudo de novo, a mesma história,
Mesmo medo, desejos e discórdias,
Diásporas e depois o começo, igual,
Agora com novo nome.

Terça-feira, Setembro 15, 2009

na amurada

saber-se apenas
uma fresta, luz recortada

“o silêncio das janelas”
e o verbo na amurada

as ondas a explodir
no convés, nonada

tempestades ínfimas
em paredes opacas

sem fotos, sem quadros
nem passos, jangadas

náufragas no interior
de uma cama larga

vazia se não fosse um
no início de uma saga

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

outro auto-retrato

pirotecnias do silêncio
em combustão de lago
ou melhor
"educado pela pedra"

Terça-feira, Setembro 08, 2009

pequeno auto-retrato

o que meus traços não mostram
é que os limites que me moldam
nada mais são que moinhos de vento
combatendo cavaleiros reais

Quarta-feira, Setembro 02, 2009

Refuge of the road - Joni Mitchell



I met a friend of spirit/ He drank and womanized/ And I sat before his sanity
I was holding back from crying/ He saw my complications/ And he mirrored me back simplified/ And we laughed how our perfection/ Would always be denied/ "Heart and humor and humility"/ He said "Will lighten up your heavy load"/ I left him for the refuge of the roads/ I fell in with some drifters/ Cast upon a beachtown
Winn Dixie cold cuts and/ highway hand me downs/ And I wound up fixing dinner/ For them and Boston Jim/ I well up with affection/ Thinking back down the roads to then
The nets were overflowing/ In the Gulf of Mexico/ They were overflowing in the
refuge of the roads/ There was spring along the ditches/ There were good times in the cities/ Oh, radiant happiness/ It was all so light and easy/ Till I started analyzing/ And I brought on my old ways/ A thunderhead of judgment was/ Gathering in my gaze/ And it made most people nervous/ They just didn't want to know/ What I was seeing in the refuge of the roads/ I pulled off into a forest/ Crickets clicking in the ferns/ Like a wheel of fortune/ I heard my fate turn, turn turn/ And I went running down a white sand road/ I was running like a white-assed deer/ Running to lose the blues/ To the innocence in here/ These are the clouds of Michelangelo/ Muscular with gods and sungold/ Shine on your witness in the/ refuge of the roads/ In a highway service station/ Over the month of June/ Was a photograph of the earth/ Taken coming back from the moon/ And you couldn't see a city/ On that marbled/ bowling ball/ Or a forest or a highway/ Or me here least of all/ You couldn't see these cold water restrooms/ Or this baggage overload/ Westbound and rolling taking/ refuge in the roads