sexta-feira, março 16, 2007

ih, faz tempo

Haiku antigo, antigo, de 2002 (parece absurdamente longe, para mim). Eu era mais bobinho naquela época... era bom ser mais bobinho.


dia cinza como rotina
linda são as cores
de tudo que desatina

adios nonino astor piazzolla by Lawrence

vou conseguir tocar, ainda hoje!

terça-feira, março 13, 2007

El Tlatoani de Texcoco - Hugo Gutierrez Vega

Ya es tarde, amor desfalleciente,
ya es tarde para decir esa palabra
en la que consisten la vida
y todos sus momentos detenidos
en el umbral de la memoria.
Siempre buscamos la claridad
y a veces caemos bajo el peso
de una excesiva iluminación.

Ahora es el tiempo de los claroscuros,
de las manos memoriosas,
de esta indecisión
con la que llega la mañana
y entran por las rendijas
los dedos del sol.
Nos decimos lo poco que resta.
Cada día nos entrega su propio peso
y lo agradecemos como un regalo
del «dador de la vida».

Sabía el Tlatoani de Texcoco
que pasamos sólo un momento aquí
y nos vamos
con el primer aire del otoño.
Cada minuto es una vida entera
subiendo hacia las nubes
cayendo en los brazos de la tierra.

quarta-feira, março 07, 2007

terça-feira, março 06, 2007

papai noel

hoje chegou pelo correio, como um presente de papai noel atrasado

Grande sertão: veredas - Guimarães Rosa
Memória e vida - Henri Bergson
mãos de cavalo - Daniel Galera
juventude J.M Coetzee
new and colected poems - czeslaw milozs
conhecimento do inferno - antonio lobo antunes
ela e outras mulheres - rubem fonseca
Relato de um Certo Oriente - Milton Hatoum
Extremely Loud and Incredible Close - Jonathan Safran Foer

uhu!

segunda-feira, março 05, 2007

quem?

"Quem inventou o amor
Teve certamente inclinações musicais"

Geraldo Azevedo - inclinações musicais

sábado, março 03, 2007

exílios

Eu sempre exigi em silêncio. O triunfo de uma vontade caprichosa e cruel. Um exílio voluntário e vil, já que espero sempre aquilo que não posso dar. Levando as "mãos distantes do meu peito", sou incapaz do primeiro gesto, a gênese que parte de mim é mais trevas que luz. Travo com personagens em minha cabeça longas discussões que, de tão longas, ganham um aspecto de verdade, e novamente guardo para mim as palavras que precisam de raiz e terra. Grito que é injustiça se acho que alguém não deu o mesmo valor que dei para algo. Grito que sou diminuído assim, eu que me exponho escondido, que me entrego ao espelho como a uma janela. Mas tudo que grito, grito sozinho.

sexta-feira, março 02, 2007

diferentes trilhas, a mesma dor

A dor, segundo o jazz, é cool e lenta, parece a fumaça que dança ao sair de um cigarro.

A dor, segundo o flamenco, é toda intensidade, é aquela necessidade de correr, as palmas marcam o ritmo dos passos.

A dor, segundo o tango, é elegante, não perde a compostura, não dobra os joelhos.

A dor, segundo o samba, é sincopada, feita para dançar, um sorriso que vai se cansando da boca e some.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Baden Powell - Serenata do Adeus

Baden Powell - Serenata do Adeus

O violão pode ser um instrumento extremamente delicado e lírico, como é possível comprovar em qualquer música composta ou tocada por Baden Powell. Esta música me diz muito, mais do que qualquer palavra possível.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Sol Nascente (a Tereza pediu pra tirar os parênteses)

A água do mar ondula levemente para direita, num ritmo constante e ininterrupto. Quase é possível ver o vento que provoca esta maré eterna, imutável. Um jogo de luz tinge a água – o sol se põe vermelho atrás da escura ilha. Logo acima do sol, após o céu vermelho terminar, pende uma decoração natalina que permanece ali durante todo ano. E esta decoração passa também por cima dos outros quadros com jogos de luz que simulam o movimento das águas. Próximo à decoração natalina há motivos japoneses – bolas coloridas e lanternas chinesas.

Abaixo disso tudo há um corredor estreito com mesas de ambos os lados, que nos finais de semana estão sempre cheias. Pelo corredor passa gente de todo tipo, entrando e saindo – modernos, descendentes de japoneses, roqueiros, jogadores de futebol, atores, universitários – todo tipo de gente que está ali por causa da comida japonesa, dos espetinhos ou do karaokê. Esta é a Choperia Liberdade, uma das muitas casas de karaokê do bairro Liberdade, em São Paulo.

Seguindo o corredor da porta de entrada, toda a perspectiva leva o olhar ao pequeno palco, que mais esconde quem canta do que mostra. O palco fica elevado a quarenta centímetros do chão, e nele cabe mais ou menos cinco pessoas cantando ao mesmo tempo, apertadas (embora sempre tentem desafiar a lei da física, seis ou sete corpos tentando ocupar o mesmo espaço). Em frente ao palco há um púlpito, que quase o cobre por inteiro. Neste púlpito está a televisão, onde passa a letra da música para quem está cantando, um cinzeiro e dois vasos de flores. Pendendo do teto algumas lanternas chinesas e a decoração natalina, que está por todo o corredor, da entrada até o palco. Atrás de quem canta a parede é coberta por espelhos.

Em frente ao palco há uma pista com um telão em frente, onde se acompanha a letra e as imagens de fundo, que vão de paisagens bucólicas até pequenos vídeos japoneses que interpretam algumas músicas. Há mais mesas do lado esquerdo da pista, e o bar continua para os fundos, onde se encontra uma churrasqueira, mais mesas, máquinas de aposta e quatro boas mesas de sinuca, que nunca ficam desocupadas.

Mas a atração principal é o karaokê. Dezenas de vozes esganiçadas passam pelos microfones todas as noites. Algumas vozes são boas, claro, sempre há exceções. Porém mais do que uma voz bonita, o que se espera dos cantores de ocasião é a performance e os hits. Algumas músicas sempre tocam – Evidências (“chega de mentiras, de negar o meu desejo, eu te quero mais que tudo..”.) sempre é cantada a plenos pulmões por muitos; Fogo e Paixão, do Wando (“você é luz, é raio estrela e luar, manhã de sol, meu iaiá, meu ioiô..”.) sempre arranca uivos da platéia; Hey you, do Pink Floyd, sempre é cantada por Ed, um homem com um comprido rabo de cavalo e um bigode à modo antiga, além da pochete logo abaixo do umbigo; Akira sempre canta sucessos internacionais e músicas japonesas, e é um dos que sempre são ovacionados no palco; Madonna faz sucesso entre as mulheres e o Rei Roberto é cantado em uníssono pela platéia de todas as idades.

A performance vai além do hit. Vale cantar Unchained Melody, música tema de Ghost, interpretando-a como se Maria Bethânia a cantasse, vale um rapaz cantar Blitz com duas backing vocals, como se estivéssemos novamente nos anos 80 vendo Evandro Mesquita destilar toda sua “carioquicidade”. Vale tudo, até cantar esta música do Tim Maia (isso se você considerar que esta música não irá desagradar o público GLS, que também é freqüentador desse microcosmo paulistano em forma de karaokê).

Quem comanda a ordem das músicas é Mama, a matriarca do lugar. É uma senhora japonesa de expressão fechada, o queixo levemente projetado à frente, o rosto pálido carregado de maquiagem, tudo isso intensificando sua pose de má. Como uma boa líder, ela sabe a hora de dar bronca e a hora de dar um sorriso. Há testemunhos que afirmam ela já ter jogado papeizinhos com o número das músicas, puramente por quem ter feito o pedido ser um desafeto seu. Ela anota na comanda do cliente e recebe os papéis com o número da música escolhida. Depois os coloca em ordem e chama a pessoa de quem for a vez. Ela os ordena não por ordem cronológica, mas os arruma de forma que a mesma pessoa não cante muitas vezes seguidas, ajeita tudo para que seja mais justo - lógico que segundo seu raciocínio. Ela faz as leis e ela mesmo as executa. Há sempre discussão em volta dela – pessoas reclamando da demora para chegar suas vezes; pessoas que querem cantar músicas de outros. Mas ela sempre impõe respeito com sua expressão fechada e voz de comando, voz de quem já ouviu muita gente que canta mal reclamar.

Outro fato que sempre causa furor é a presença de Paulo César Pereio, ator importante na história do cinema brasileiro. Quando passa em frente ao palco, rumo às mesas de sinuca, onde passa geralmente toda madrugada, é ovacionado com frases que um dia foram suas:

“Eu te amo, porra!”

“Só toca em mim casando!”

“Só casando!”

Os gritos de Peréio!, as fotos e os cumprimentos são tratados com certa frieza, não antipática, de quem já cansou disso, mas de quem quer sossego. Mas lá no seu canto, na sinuca, raramente alguém o incomoda.

Outros famosos freqüentam o lugar. Vampeta quando visitou o karaokê ouviu inúmeros pedidos para voltar ao Corinthans e salvar o time do ano ruim. A Pitty saiu brava e apressada do karaokê quando viu que estavam cantando um de seus sucessos, a música Equalize. Mas são os anônimos que dão o tom do lugar, e são eles que vão ao palco, invertendo a lógica do show business.

O lugar atravessa a madrugada, sempre gente chegando e indo embora, o que renova a trilha sonora e visual do bar. Há sempre algo novo e insólito para se olhar, alguém divertido para se conversar ou um estranho com quem possa dividir o palco. Conforme a madrugada vai chegando ao fim, o ritmo do entra e sai diminui e o karaokê ganha um tom intimista: a voz de quem canta não compete contra um enorme burburinho de conversas, nem toda roda de amigos é cortada por garçons ensandecidos que não dão conta de atender a todos.

Independente do que houve na noite – brigas de voar cadeira, quatro pessoas beijando o mesmo beijo, músicas ruins, músicas boas, o mau-humor de Mama, os sushis e temakis do chef de comida japonesa que é nordestindo, independente de toda água que corre sem nunca sair do lugar nos quadros espalhados por todo bar, a noite acaba com o nascer do sol e a Choperia Liberdade fecha, quando os postes japoneses do bairro já estão apagados.

domingo, fevereiro 11, 2007

Assenhoreamento

A primeira vez que levitei foi no meu quarto. Eu ouvia música, concentrado em meus pensamentos. Uma sensação de leveza tomou meu corpo, e eu, que fitava o teto, o vi aproximando. Olhei para baixo e vi meu pé deixando de tocar o lençol, que manteve minhas formas como se eu ainda ali estivesse. Não contei para ninguém. Há muito eu mesmo me desacreditara. A segunda vez que aconteceu foi num ônibus, voltando para casa após uma festa. Já havia amanhecido e alguns trabalhadores começavam seu dia útil. Eu olhava pela janela e percebi toda perspectiva mudar. As linhas de meu olhar criaram novos desenhos, novas configurações da paisagem, e percebi estar levitando novamente. Eu não tinha controle nenhum sobre este dom, o que me fazia questionar se realmente era um dom. Logo já estava no banco novamente. Olhei para os lados, mas ninguém me olhava, ninguém percebeu. A terceira vez aconteceu enquanto eu caminhava numa rua do meu bairro. Meus pés deixaram de tocar o chão, mas eu continuei indo para frente, como se ainda caminhasse. Não fiquei assustado dessa vez, mas ainda não tinha nenhum controle sobre a levitação. Estou aguardando a quarta vez. Passo horas no meu quarto, concentrado em levitar. Sou humano, e tudo que me foge ao controle me assusta. Minha mãe acha que estou deprimido. Talvez eu esteja, mas não é por isso que fico trancado em meu quarto. Preciso ser senhor dos meus movimentos, ser dono de mim.

sábado, fevereiro 10, 2007

Cassavetes!!!

Cassavetes em 35 mm, dessa sexta passada até quinta-feira, no CINESESC. Vale muito a pena!

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

exercícios urbanos

http://portalliteral.terra.com.br/

olhem a seção exercícios urbanos deste mês. Um conto meu foi o vencedor =)

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

show blog

Blog de vídeos com uma ótima seleção. Vale a pena.

http://joseantonioleaoramos.blogspot.com/

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

um mar de clichês

As cartas são postas na mesa, uma série de metáforas comuns batem na porta, querem entrar na casa interior, visitar o que nem o espelho vê. Tudo isso lança uma névoa no olhar, que míope não enxerga mais que três palmos. Os dias passam lentos, o tempo é lento, dura o que tem que durar. O lugar comum é confortável por que te protege do novo, te fecha os olhos para um mundo imenso que quer entrar pela janela.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Guinga - Choro pro Zé

Guinga - Choro pro Zé (para ouvir)

Guinga foi uma grande revelação para mim. Um universo sonoro totalmente novo para mim. Nele há influências dos grandes compositores de canção norte-americanos e também dos brasileiros (Cole Porter e Chico Buarque, juntos). Há influência de choro e jazz, de todos os tipos de música brasileira, tudo isso misturado numa obra totalmente original, singular. Fez algumas parcerias importantes, como com o letrista Paulo César Pinheiro, e depois a sua maior parceria, com Aldir Blanc. Provavelmente nas últimas décadas ninguém compõe como ele. Há relatos de alguns grandes, que escancaram seu amor pela música de Guinga - muitos deles o consideram um gênio (talvez um pequeno gênio, já que ele é discreto). Hermeto Pascoal, Ed Motta, Chico Buarque, Toots Thielemans, Paco de Lucia, Michel Legrand, Sérgio Mendes, todos já fizeram declarações enaltecendo o talento de Guinga.

http://www.guinga.com.br

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Sobre a psicanálise - Ricardo Piglia

"(...) ela é uma das formas mais atraentes da cultura contemporânea. Em meio à crise generalizada da experiência, a psicanálise traz uma épica da subjetividade, uma versão violenta e obscura do passado pessoal. Ela é, pois, atraente porque todos aspiramos a uma vida intensa; em meio a nossa vida secularizada e trivial, seduz-nos admitir que, num lugar secreto, experimentamos ou experimentávamos grandes dramas; que quisemos sacrificar nossos pais no altar do desejo; que seduzimos nossos irmãos e lutamos com eles até a morte numa guerra íntima; que invejamos a juventude e a beleza de nossos filhos e que nós também (ainda que ninguém saiba) somos filhos de reis abandonados à margem do caminho da vida. Somos o que somos, mas também somos outros, mais cruéis e mais atentos aos sinais do destino. A psicanálise nos convoca a todos como sujeitos trágicos; nos diz que há um lugar no qual somos sujeitos extraordinários, temos desejos extraordinários, lutamos contra tensões e dramas de grande profundidade, e isso é muito atraente. Assim sendo, e como bem diz Freud, a psicanálise gera resistência e é uma arte da resistência e da negociação, mas também é uma arte da guerra e da representação teatral, intensa e única."

domingo, janeiro 28, 2007

Banal

Mais parecia que ela ia me bater, mas ela recolheu as mãos nos bolsos e andou para longe. Ah, doeu bem mais do que qualquer tapa. Ou seria um soco? Acho que as mulheres podem ser dividas nessas duas categorias: as que dão tapas – delicadas e sutis, as mais perigosas; e as que dão socos – claras e diretas, você sabe em que terreno está pisando. Recapitulando, acho que ela daria um tapa. E não deu, o que achei estranho. Deve ser algo masoquista em mim, mas sempre tento tirá-la do sério, e ela, esperta, me tira antes, sai andando, esconde as mãos que quero em meu rosto de qualquer maneira, tapa ou carícia. Outro dia falei mal de sua mãe. Eu sabia que ela ficaria muito brava, puta mesmo, o suficiente pra mandar eu ir me fuder ou me virar um tapa, mas não, ela me olhou frio e disse que eu só falo merda. Adoro quando ela fala palavrão. Na boca dela tem o peso de um container. Só na boca dela os palavrões ainda não se banalizaram. Nela nada é banal, talvez por isso quero tanto que ela desça do salto, mas parece impossível. Nela nada é banal... Hoje, quando achei que ela me bateria, eu gritei com ela, por nada, e apertei seus braços com o intuito de deixar a marca de meus dedos em seu braço branco de neve. Ela o tirou de minha mão, com uma força que eu não conhecia, e me olhou com aquele olhar frio, velho conhecido. Esperei os palavrões e veio silêncio. Falei algo, balbuciei qualquer palavra pela metade, mas acho que ela nem ouviu, já estava andando para longe. Agora estou esperando o dia seguinte, torcendo para que esta não tenha sido a última oportunidade de irritá-la, de tirá-la do sério. Ainda consigo. Ela não tem o direito de banalizar o mundo inteiro e não descer do pedestal onde a coloquei.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Tom Waits - Alice

Tom Waits - Alice (para ouvir)

Alguma coisa na voz de Tom Waits me diz que ele sofreu bastante. Sua voz é estranha, áspera, rouca. A instrumentação é ainda mais estranha que sua voz - ele tem uma noção musical bem diferente do comum, do que é mais corrente. Mas, estranhamente (sou obrigado a ser repetitivo), algumas músicas dele são extremamente bonitas. Talvez seja a capacidade de dar valor ao que é belo, para quem, talvez, tenha visto muitas coisas feias. Há relatos de soldados, que ao responderem como descreveriam a guerra, disseram que ela é sublime. Há maravilhamento na resposta, na visão, e esse maravilhamento vem do que é gigantesco, do que é tão absurdo, tão aquém ao homem, que só pode ser muito humano. Talvez seja esse o motor de Tom Waits.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

recusa

poderia escrever do convívio com crianças, das chuvas incessantes, dos morros que parecem muros, da coruja voando em direção à tempestade. podia falar dos livros que li, dos filmes, dos pequenos planos, das grandes vontades. mas não quero, ando sem vontade de escrever. mas a única coisa que me deu vontade de escrever foi que tive uma sensação de que 2007 vai doer.