terça-feira, dezembro 18, 2007

Hugo Gutierrez Vega (quem se habilita a comprar um livro dele diretamente do México?)

Análisis de una situación doméstica

Como si no supieras que la noche
toca ya en los antiguos ventanales,
como ignorando al astro que destruye
las risas de la tarde,
suavemente
persistes en la feliz tarea
de remendar las cosas, ocultar deterioros
y presentar las almas de la casa
"rotitas, pero limpia", preparadas
para la prueba de los buenos días.
Tejes el entramado de este clima
donde crecen los seres. Nunca notas
que esta bella y terrible serpiente de las horas
se va enroscando al fondo del pasillo.
Me dices con razón que es más bien bella
(nuestro miedo está al fondo del segundo adjetivo).
Pasan los días, se cierran los caminos
y nuestra condición construye puentes.
Corre el río, la tarde se diluye,
el crepúsculo invade las ventanas,
los bellos adjetivos reconstruyen
los cambios de la luz, se multiplican
los signos de la paz y tú sonríes
?esa sonrisa nos levanta el alma?
cuando la tarde oculta sus miradas.
Y como nada pasa, izamos velas
para cruzar el golfo de la noche.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

O descanso do fotógrafo

Falava de sua vida, durante um descanso merecido, após horas de pé, o fotógrafo mais velho. O mais novo escutava, tendo de aproximar o ouvido para distanciar os gritos adolescentes dos formandos e da música. O mais novo dos dois fazia apenas algumas perguntas, para rumar a conversa.
“Meu filho mais velho não vejo faz anos. Já é homem, já. Trinta anos, tem filho. Sim, sim, conheço meu neto. Mas não vou atrás. Ele sabe onde moro, quando quer, me procura. Culpa da minha mulher, se meteu com um homem barra-pesada. É isso aí, me deixou. Paguei pensão e tudo. Para homem você paga pensão até os vinte um, para mulher até os dezoito. Engraçado, né? É ao contrário. E se fizer faculdade, tem que pagar os estudos até o fim. Não, ele não fez não. Depois de um tempo, que ela me deixou, ela começou a ligar, me pedindo ajuda pra se livrar do barra-pesada. Mas eu não ajudei não, o que que eu ia fazer? E por causa dele eu não via meu filho. Mas teve uma vez que eu liguei pra ela, falando que ia lá ver o moleque. Ela disse que o cara estava lá, que era pra eu não ir. Eu disse que ia, não me importava com o cara, que eu ia ver meu filho de qualquer jeito. Chamei um amigo que era policial. Hoje é advogado, faz tempo que não vejo também. Ele ficou na esquina, segurando a arma do lado da cintura. Disse que dali, se o cara tentasse qualquer coisa era pá!, tiro no meio da cabeça. Fui até o portão e fiquei gritando o nome do meu filho, até que ele veio. O barra-pesada nunca apareceu. Esse meu amigo era gente boa, olha o que ele fez por mim. Eu devia procurar ele.”
O fotógrafo mais velho coçava os olhos insistentemente, no final da conversa. Depois de um tempo de silêncio, levantou-se e disse que ia ao banheiro. Deu um tapinha no ombro do mais novo, antes de seguir pelo labirinto de mesas e cadeiras.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Paint como eu pinto?

Gostaria de dar uma dica: o blog do Vitor Brandt - Paint como eu pinto?

Desenhos feitos no antigo e saudoso paintbrush, usando o mouse e nada mais.

muito bom!

na falta de palavras...

Como ando escrevendo pouco, muito pouco, resolvi adicionar um paliativo: aí do lado vocês podem achar coisas que ando escutando no last.fm

façam bom proveito

quarta-feira, novembro 21, 2007

Conto de natal

Muitos imaginam poder voar e deixam janelas para abraçar o chão.

quarta-feira, novembro 14, 2007

os sinais

Impossível não ver em cada texto um recado. Nem imaginar que os gestos carregam tanto mais do que o ar movido em seu breve movimento. Há símbolos demais no mundo. Uma árvore, se vista na rua, é uma árvore. Se vista numa fotografia, ao laod de uma criança, é a vida, suas raízes, o passado e o futuro. Anoto um trecho qualquer em meu caderno. Posso apenas ter gostado do som daquelas palavras postas umas atrás das outras. Mas se divido isso com alguém, pode ser o sinal da minha felicidade ou tristeza, do meu desespero escondido que se mostra como a ponta de um iceberg. Os próprios icebergs se tornaram outras coisas que não apenas um imenso bloco de gelo (que até pouco tempo atrás era eterno). E esse texto aqui não é signo de nenhuma outra coisa, apenas uma constatação de que o mundo está cada vez mais pesado, cada coisa está se multiplicando em mil outras.

segunda-feira, setembro 17, 2007

fotos!!!

Fotos tiradas numa looooonga madrugada do Aeroporto Internacional de Cuiabá

http://s183.photobucket.com/albums/x70/guilecf/Aeroporto%20de%20Cuiaba/

quinta-feira, setembro 06, 2007

think of me

Lay your head where my heart used to be
Hold the earth above me
Lay down in the green grass
Remember when you loved me

Come closer don't be shy
Stand beneath a rainy sky
The moon is over the rise
Think of me as a train goes by

sexta-feira, agosto 24, 2007

Deus e o diabo na terra da morte

Olha só, fizeram a contagem de quantos Deus e o diabo mataram, segundo a Bíblia:

http://pedrodoria.com.br/2007/08/24/quem-matou-mais-deus-ou-sata/

terça-feira, agosto 21, 2007

segunda-feira, agosto 13, 2007

respondendo aos comentários (na verdade, apenas um)

A diferença de aprender e desaprender é, neste caso, questão de linearidade - aprender tem uma conotação de ir para frente. Desaprender seria dar alguns passos para atrás, refazer algo.

lições

desaprendendo o guilherme que roubou tudo aquilo atrás do nome

sexta-feira, agosto 03, 2007

vontades de Bruno

Vender a Parati e comprar uma moto, vento no rosto. A intenção primeira, comprar este carro por ser carro de família, não existe mais. Não existe mais bebê, mulher, ele mesmo como era até pouco tempo. Novos tempos exigem vento. E assim que subir na moto, escolher a esmo uma estrada, mochila nas costas, rumo incerto, rumo preciso de incertezas. E não avisar ninguém, que já não há mais importâncias. As pessoas que importam deixaram de o fazer. Pensa que seria romântico demais, sonhador demais, mas o que o pragmatismo fez por ele, até agora? O que as noites perdidas em trabalhos cansativos fizeram por ele? O que a poupança guardou? Os carnês das Casas Bahia? O consórcio do carro usado? Sabe apenas que quer o contrário. E vento.

terça-feira, julho 31, 2007

vontades de Luíza

Primeiro, passar do alto apartamento a uma casa, térrea (caminho inverso, será?). Depois se livrar dos abajures estranhos, comprados em tardes tediosas das quais nem mais se recorda, e substituí-los por plantas (menos luz produzida, mais luz necessitada). E agraciá-las com sua atenção, com o mesmo afinco com que lia a coluna social, buscando seu nome, notícias pequenas, que alimentavam algo que agora não tem mais fome. Depois, ouvindo música junto às plantas, num quintal pequeno, com o espaço de um balanço e uma casa de cachorro, repensar tudo aquilo que ensinou a seu filho, que já está chegando a idade de avaliar todo esse ensinamento e se voltar contra ele. E assim que aprender a língua das plantas, tentar as flores, muito mais delicadas e efêmeras, com seus caprichos e humores. E depois das flores, um cachorro, aquele que proibiu a seu filho. E só depois, depois de todo esse reaprendizado, desbrutalização, voltar-se para si, com novos espelhos.


terça-feira, julho 10, 2007

Novas fotos

Uma pequena seleção de fotos do final de semana em Mongaguá.

http://s183.photobucket.com/albums/x70/guilecf/Mongagua/

terça-feira, julho 03, 2007

Cansaço

Que fazer quando se está cansado disto tudo? Arrumar as malas, ir embora no primeiro ônibus que deixar a cidade?

("a cidade não mora mais em mim")

Reinventar-se dum jeito que ninguém mais te reconhecerá, e sentir-se sozinho ou reinventar-se num modo de potencializar o eu?

Mas o cansaço atinge até o pensar.

quinta-feira, junho 28, 2007

reflexões sobre uma chamada do Globo Repórter

o tema da semana é saúde, mas minha reflexão (na verdade uma questão) apenas tangencia o assunto:

Alguém já viu ou ouviu falar de alguma mulher que sofreu infarto?

domingo, junho 17, 2007

crenças

Não acredito em nenhum deus que não crê em surpresas...

sexta-feira, junho 15, 2007

Quase Susto

http://www.comartejr.com.br/originais/texto.php?id=55


Conto Quase Susto. Vote e comente, para ajudá-lo a ser publicado numa revista.

terça-feira, maio 22, 2007

menina na usp

menininha na usp

sexta-feira, maio 18, 2007

interrogação

meu teclado, com algum problema, não tem ponto de interrogação. é como se eu não pudesse fazer perguntas, sem ter certeza nenhuma...

quarta-feira, maio 16, 2007

outra

Eliza e Joana - outro bar

segunda-feira, maio 14, 2007

nada a dizer, então foto...

Num bar

quinta-feira, maio 03, 2007

a gripe ataca de novo...

De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
Eu morrendo

quarta-feira, maio 02, 2007

Boba confissão

Confesso, não tenho nada para dizer de concreto. É fato, ultimamente ando muito abstrato. Para entrar sem cachorro no mato, é preciso saber não andar reto.

sexta-feira, abril 27, 2007

música?

Me meti a fazer música ultimamente. A sensação é de que fiz as pazes com alguma coisa dentro de mim, que estava dormida. Tento muitas coisas: escrevo, tiro fotos, faço faculdade de cinema. Mas sempre achei que, das artes, a que se comunica mais diretamente com os sentimentos é a música. Ela é abstrata, outra linguagem, tanto para dentro como para fora, seja para ouvir ou fazer, se expressar. E agora ouço as musiquinhas que ando fazendo e pareço conversar comigo mesmo. Pensamentos concretos dialogando com sentimentos abstratos, ouço meu pensamento, vertido em música. É estranho. É estranho e bom.



quarta-feira, abril 25, 2007

Grande Sertão

Acho incrível, a surpresa de encontrar algo que você já pensou na voz de outro, seja gente vivida ou gente criada, como o trecho que vou citar, do Grande Sertão: Veredas:

""Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos" - me explicou o compadre meu Quelemém. Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece - só rara vez se consegue se subir fora dela, feito um milagre: peixinho pediu. Por que? Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."



sábado, abril 21, 2007

"de noite pra quem você é uma luz embaixo da porta?"

o sol me acordou, me tocando no ombro e avisando que o dia há muito havia começado. o corpo pesando mais que o normal, reflexo dos excessos. qual excesso é mais leve? qual memória pode ser reconfortante? qual dia desfaz a noite em mil pássaros? ou em água? ou em cabelos? ou só o mesmo lençol quente de muitos sóis e não de corpos...

quarta-feira, abril 18, 2007

Hotel Toffolo - Drummond

E vieram dizer-nos que não havia jantar.
Como se não houvesse outras fomes
e outros alimentos.

Como se a cidade não nos servisse o seu pão
de nuvens.

Não, hoteleiro, nosso repasto é interior
e só pretendemos a mesa.
Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras.
Tudo se come, tudo se comunica,
tudo, no coração, é ceia.

sexta-feira, abril 13, 2007

Czeslaw Milosz

Ganhei o Collected Poems do Czeslaw Milosz, uma bíblia com todas as poesias, de 1931-2001 e só agora, depois de alguns meses, comecei a lê-lo com mais calma. Os poemas são um misto de amargura e busca de redenção, momentos de maravilhamento e terror, momentos de muita fé católica e outros de descrença. Milosz viveu intensamente a segunda guerra mundial e a guerra nunca terminou, para ele. Vou traduzir alguns trecho...

“O verdadeiro inimigo do homem é a generalização.

O verdadeiro inimigo do homem, a assim chamada História,

Atrai e terroriza com seus números plurais.

Não acredite. Esperta e traiçoeira,

A História não é, como disse Marx, anti-natureza,

E se uma deusa, uma deusa do cego destino.”

(Lecture IV)


“Eu a amava, sem saber quem ela realmente era.

Eu infligi dor a ela, buscando minha ilusão.

Eu a traí com outras mulheres, embora fiel somente a ela.

Nós vivemos muita felicidade e tristeza.

Separações, resgates milagrosos. E agora, estas cinzas.

E o mar quebrando na orla enquanto eu caminho pela rua vazia.

E o mar quebrando na orla. E o sofrimento comum.


Como resistir ao nada? Que poder

Preserva o que um dia foi, se a memória não perdura?

Porque eu lembro de pouco. Eu lembro de tão pouco.

De fato, momentos reconstruídos significariam o Julgamento Final

Que é adiado diariamente, por Misericórdia, talvez.


Fogo, libertação da gravidade. Uma maçã não cai,

Uma montanha move-se de seu lugar. Além da cortina de fogo,

Um cordeiro fica no prado de formas indestrutíveis.

As almas no Purgatório queimam. Heráclito, louco,

Vê as chamas consumirem as fundações do mundo.

Acredito na Ressurreição da Carne? Não destas cinzas.”

(Da separação de minha mulher, Janina)


“Imperfeito e ciente disso. Desejando grandeza,

Capaz de reconhecer grandeza onde quer que esteja,

E não exatamente, apenas em parte, clarividente,

Eu sabia o que era guardado para homens menores como eu:

Uma festa de breves esperanças, uma passeata dos orgulhosos,

Um torneio de corcundas, literatura.”

(Uma confissão)

quinta-feira, abril 12, 2007

imaginações improvisadas # 4

Gestos desencontrados que mais pareciam trens descarrilhando. O som era monótono, música de rádio AM às seis da manhã. Gosto de guarda-chuva na boca, goteiras por todo corpo. A cama ainda desarrumada. O lavabo a uma gota de transbordar (adianto que não transbordou). Quando a porta bateu atrás de suas costas, o sol já batia no teto do céu. Ficaram no quarto abraços perdidos e beijos desperdiçados (sem contar o corpo morto).

quarta-feira, abril 11, 2007

o susto

Quanto mais conheço as pessoas, menor é a sensação de saber do mundo. O que poderia virar desespero na verdade vira lição de humildade. Me coloco numa posição de questionar e observar, esperando que algo dê um sinal, que um farol se acenda no horizonte, ou qualquer gota de iluminação me atinja a testa. Mas ainda sim fica o gosto do desentendimento, o medo do não saber o que esperar, o receio da surpresa. E a esperança que essa surpresa se torne, algumas vezes, maravilhamento.

quinta-feira, abril 05, 2007

Andrew Bird - Armchairs

Andrew Bird - Armchairs (para ouvir)

I dreamed you were a cosmonaut
of the space between our chairs
and I was a cartographer
of the tangles in your hair

I sighed a song that silence brings
it's the one that everybody knows
oh everybody knows
the song that silence sings
and this was how it goes

these looms that weave apocryphal
they're hanging from a strand
these dark and empty rooms were full
of incandescent hands

an akward pause
a fatal flaw
time it's a crooked bow
oh time's a crooked bow

in time you need to learn to love
the ebb just like the flow

grab hold of your bootstraps
and pull like hell,
'til gravity feels sorry for you,
and lets you go

as if you lack the proper chemicals to know
the way it felt the last time you let yourself
fall this low
time
oh time
it's a crooked bow
time's a crooked bow

fifty-five and three-eighths years later
at the bottom of this gigantic crater
an armchair calls to you
yeah this armchair calls to you
and it says that
some day
we'll get back at them all
with epoxy and a pair of pliers
as ancient sea slugs begin to crawl
through the ragweed and barbed wire

you didn't write you didn't call
it didn't cross your mind at all
and through the waves
the waves of a.m. squall
you couldn't feel a thing at all
your fifty-five and three-eighths tall
fifty-five and three-eighths tall

time

quarta-feira, abril 04, 2007

da impulsividade 2

O vento, para se acalmar, precisa derrubar cercas, árvores e postes, mudar a rota dos pássaros e jogar as ondas sobre as pedras e o calçadão.

terça-feira, abril 03, 2007

da impulsividade

A impulsividade deixa um gosto de lâmina na boca. A língua, sangrando, não consegue proferir nenhuma palavra audível. Os músculos tensos da face formam uma expressão desconhecida, como se o cérebro mandasse sinais tão rápidos que os músculos do corpo parecem não conseguir reagir, mas é você que não percebeu, tudo foi mais rápido que olho. A mão de um prestidigitador que não entretem, mas que te dá um tapa no rosto.

segunda-feira, abril 02, 2007

As pedras de toque da canção

No blog Tocatudo, do site nomínimo, Paulo Roberto Pires citou um livro de José Lino Grünewald, onde ele fez uma antologia de versos, e não de poesias completas. Chamou esses versos, que julga felizes na construição de uma imagem ou da própria poesia, de "pedras de toque".

No blog, Paulo Roberto começou uma brincadeira, citando algumas "pedras de toque" da música. Gostei da brincadeira e escolhi algumas coisas. Acho que esta brincadeira continuará em posts futuros.

"I'll try to keep myself open up to you
That's a promise that I made to love
When it was new
"Just like Jericho" I said
"Let these walls come tumbling down" "
(Joni Mitchell - Jericho)

"A tua presença
Se espalha no campo derrubando as cercas"
(Caetano Veloso - A tua presença)

"Pra quem você tem olhos azuis
E com as manhãs remoça
E à noite, pra quem
Você é uma luz
Debaixo da porta?"
(Chico Buarque - Você, Você)

"Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos"
(Caetano Veloso - Oração ao tempo)

"Deja el recuerdo caer
como un fruto por su peso."
(Jorge Drexler - Zamba de Olvido)

"A voz mais rouca,
e os beijos,
cometas percorrendo o céu da boca..."
(João Bosco e Aldir Blanc - Latin lover)

domingo, abril 01, 2007

da criação

Depois de meses sem escrever uma linha de algum conto, ontem escrevi quatro páginas à partir de uma idéia que há muito voava pela cabeça. Um parênteses - idéias sempre são muitas, é questão de prestar atenção em conversas de amigos, em histórias que te contam, pessoas na rua, filme, música, tudo é um ponto de partida. E o problema da idéia é que é apenas isso, um ponto de partida. O resto é trabalho, onde tenho muita dificuldade. Exige disciplina, disponibilidade, um certa tipo de entrega. Como uma alternativa ao mais fácil, estou tentando buscar o outro, nas últimas coisas que escrevi. O conto que estou escrevendo é sobre a família de uma garota de 14, 15 anos, e é narrado em primeira pessoa. Será que consigo escrever as impressões de uma garota adolescente? Provavelmente não, mas o que vale é a tentativa, é a parte divertida, é onde me vejo crescendo, sendo obrigado a expandir. E esta idéia partiu de uma conversa, pesquei uma história e fiquei com ela na cabeça. O problema é que era essencialmente uma história leve, cheio de leveza, e quando comecei a pensar sobre, a resolução do conto seria em torno disso, algo leve, quase edificante. E não quero que acabe assim, quero que seja mais denso. Então a tentativa agora é de deixar que essa história ganhe peso, gradualmente, uma família vista por uma adolescente. Será que consigo? Acho que não =P

Me perdi enquanto escrevia. O que queria dizer é que a criação é realmente algo mágico. Fico contaminado por um conto, enquanto o escrevo. Parece que o mundo começa a passar por um filtro, como se nossos olhos se tornasse um funil que tenta resumir a vivência cotidiana em palavras de um outro que não existe, mas que vai ganhando corpo e páginas.

Enfim, se no final das contas eu não ficar satisfeito com o resultado do conto, ou não conseguir alcançar o que estou almejando com ele, pelo menos ele serviu para me acordar de meses de apatia (literariamente falando), me lembrou como a criação causa uma inquietação que é ao mesmo tempo prazerosa e dolorosa.

sábado, março 31, 2007

do silêncio (pensando alto!)

Já pensei muito sobre o silêncio, por me considerar uma pessoa silenciosa, ou que dá valor a isso. E, num exercício de sensações, de sentir o outro, tenho a impressão de que as pessoas pedem silêncio, querem aprender como se sentir confortáveis quando não há palavras. E, experiência própria, ninguém agüentou meu silêncio por muito tempo. Há sempre uma cobrança por palavras, por pensamentos esclarecidos, o silêncio pode parecer, para outras pessoas, como maneira de esconder algo. Para haver silêncio é preciso haver confiança, e confiança muitas vezes está ligada às palavras. É nas palavras que as coisas mudam de sentido, onde há os desvios. Num bom silêncio há compreensão e intimidade, há serenidade e calma, há o tempo em sua duração, longe dos ponteiros. E é claro que as pessoas pedem, pedem aquilo que ainda não podem receber, querem o novo, muitas vezes sem pensar que isto é algo cotidiano, sem pensar que quebram a todo momento o silêncio que querem com pedidos desesperados.

Talvez eu esteja enganado, e na verdade sou eu quem não confia nas palavras, e talvez por isso eu necessite escrever, para me entender com elas. Mas a palavra escrita nem sempre produz sons e o silêncio físico é apenas modo de ouvir outras vozes, mais subterrâneas, lençóis d´água camadas a baixo, sangue correndo em veias escondidas.

quarta-feira, março 28, 2007

Do sono

Desde algum tempo
(os dias para mim são movediços,
difícil defini-los),
já não posso dormir tranquilamente.

À noite, sons de passos enchem
meu quarto de presença impessoal
e pela janela entram sirenes
que conduzem meus sonhos às pedras.

De manhã o sol incendeia a cama
e enchem meus olhos de vermelho.
Os pássaros fazem alvoroço
e brincam de ser galos.

Provável que os motivos
não sejam apenas exteriores.

Provável que a noite seja
apenas um estado de espírito
e que a manhã nada mais
que um golpe de estado.

E que as sirenes que me chamam
de certa forma voam em mim
e os pássaros são flechas
contra um silêncio forçado.

terça-feira, março 27, 2007

bobeiras da insônia


a insônia produz muitas coisas, a maioria, no meu caso, é bem boba.

a cidade e eu

São Paulo, hoje, é tudo que não mostrei a ela, tudo que não reteve seus passos e que, então, continua morto. E o que reteve é tão cheio de vida, que ficou leve e descolou da cidade. São Paulo, agora, está morta como uma fotografia sem contraste. Nesta cidade morta (limbo), sou um fantasma com necessidade de inferno.

domingo, março 25, 2007

improvisações

Era um dia de chuva como outro qualquer. A janela se enchera de pequenas gotas que ignoravam a gravidade da situação e não iam embora. Eu não ia embora. Não via mais graça em pegar chuva e chegar encharcado em algum lugar, seja ele qual fosse. Esperei, esperei. As gotas continuavam paradas, eu também. A chuva parecia longe de terminar, só aumentava, até que os prédios mais próximos não eram mais visíveis. Abri a janela e a água começou a entrar, invadindo todos os quartos, a sala, a cozinha, o banheiro. Os móveis começaram a boiar, o sofá passou do meu lado como se ele fosse leve, a geladeira também, ignorando toda força que fiz para subi-lo três andares por escada. Tudo ficou leve, diante do peso da água. Estranhamente não senti dificuldades de respirar. Houve continuidade, meus pulmões se encheram de água também. Sai pela janela, para ver o que acontecia nos prédios em frente ao meu.

quinta-feira, março 22, 2007

Minha cama, minha ilha

Chegaria com mãos silentes,

dedo em riste cortando a boca em duas,

cortando a voz,

a raiz da voz.


Voraz seria a palavra em desespero,

a espera inútil de mudanças de luz

quando o sol já se curvou,

quando meus joelhos

já dobrados encostam-se ao peito.


Deitado, dedo ainda em riste,

agora cortando o ar

em fragmentos de memória,

em retratos e ruínas,

Rituais de fim.

sexta-feira, março 16, 2007

ih, faz tempo

Haiku antigo, antigo, de 2002 (parece absurdamente longe, para mim). Eu era mais bobinho naquela época... era bom ser mais bobinho.


dia cinza como rotina
linda são as cores
de tudo que desatina

adios nonino astor piazzolla by Lawrence

vou conseguir tocar, ainda hoje!

terça-feira, março 13, 2007

El Tlatoani de Texcoco - Hugo Gutierrez Vega

Ya es tarde, amor desfalleciente,
ya es tarde para decir esa palabra
en la que consisten la vida
y todos sus momentos detenidos
en el umbral de la memoria.
Siempre buscamos la claridad
y a veces caemos bajo el peso
de una excesiva iluminación.

Ahora es el tiempo de los claroscuros,
de las manos memoriosas,
de esta indecisión
con la que llega la mañana
y entran por las rendijas
los dedos del sol.
Nos decimos lo poco que resta.
Cada día nos entrega su propio peso
y lo agradecemos como un regalo
del «dador de la vida».

Sabía el Tlatoani de Texcoco
que pasamos sólo un momento aquí
y nos vamos
con el primer aire del otoño.
Cada minuto es una vida entera
subiendo hacia las nubes
cayendo en los brazos de la tierra.

quarta-feira, março 07, 2007

terça-feira, março 06, 2007

papai noel

hoje chegou pelo correio, como um presente de papai noel atrasado

Grande sertão: veredas - Guimarães Rosa
Memória e vida - Henri Bergson
mãos de cavalo - Daniel Galera
juventude J.M Coetzee
new and colected poems - czeslaw milozs
conhecimento do inferno - antonio lobo antunes
ela e outras mulheres - rubem fonseca
Relato de um Certo Oriente - Milton Hatoum
Extremely Loud and Incredible Close - Jonathan Safran Foer

uhu!

segunda-feira, março 05, 2007

quem?

"Quem inventou o amor
Teve certamente inclinações musicais"

Geraldo Azevedo - inclinações musicais

sábado, março 03, 2007

exílios

Eu sempre exigi em silêncio. O triunfo de uma vontade caprichosa e cruel. Um exílio voluntário e vil, já que espero sempre aquilo que não posso dar. Levando as "mãos distantes do meu peito", sou incapaz do primeiro gesto, a gênese que parte de mim é mais trevas que luz. Travo com personagens em minha cabeça longas discussões que, de tão longas, ganham um aspecto de verdade, e novamente guardo para mim as palavras que precisam de raiz e terra. Grito que é injustiça se acho que alguém não deu o mesmo valor que dei para algo. Grito que sou diminuído assim, eu que me exponho escondido, que me entrego ao espelho como a uma janela. Mas tudo que grito, grito sozinho.

sexta-feira, março 02, 2007

diferentes trilhas, a mesma dor

A dor, segundo o jazz, é cool e lenta, parece a fumaça que dança ao sair de um cigarro.

A dor, segundo o flamenco, é toda intensidade, é aquela necessidade de correr, as palmas marcam o ritmo dos passos.

A dor, segundo o tango, é elegante, não perde a compostura, não dobra os joelhos.

A dor, segundo o samba, é sincopada, feita para dançar, um sorriso que vai se cansando da boca e some.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Baden Powell - Serenata do Adeus

Baden Powell - Serenata do Adeus

O violão pode ser um instrumento extremamente delicado e lírico, como é possível comprovar em qualquer música composta ou tocada por Baden Powell. Esta música me diz muito, mais do que qualquer palavra possível.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Sol Nascente (a Tereza pediu pra tirar os parênteses)

A água do mar ondula levemente para direita, num ritmo constante e ininterrupto. Quase é possível ver o vento que provoca esta maré eterna, imutável. Um jogo de luz tinge a água – o sol se põe vermelho atrás da escura ilha. Logo acima do sol, após o céu vermelho terminar, pende uma decoração natalina que permanece ali durante todo ano. E esta decoração passa também por cima dos outros quadros com jogos de luz que simulam o movimento das águas. Próximo à decoração natalina há motivos japoneses – bolas coloridas e lanternas chinesas.

Abaixo disso tudo há um corredor estreito com mesas de ambos os lados, que nos finais de semana estão sempre cheias. Pelo corredor passa gente de todo tipo, entrando e saindo – modernos, descendentes de japoneses, roqueiros, jogadores de futebol, atores, universitários – todo tipo de gente que está ali por causa da comida japonesa, dos espetinhos ou do karaokê. Esta é a Choperia Liberdade, uma das muitas casas de karaokê do bairro Liberdade, em São Paulo.

Seguindo o corredor da porta de entrada, toda a perspectiva leva o olhar ao pequeno palco, que mais esconde quem canta do que mostra. O palco fica elevado a quarenta centímetros do chão, e nele cabe mais ou menos cinco pessoas cantando ao mesmo tempo, apertadas (embora sempre tentem desafiar a lei da física, seis ou sete corpos tentando ocupar o mesmo espaço). Em frente ao palco há um púlpito, que quase o cobre por inteiro. Neste púlpito está a televisão, onde passa a letra da música para quem está cantando, um cinzeiro e dois vasos de flores. Pendendo do teto algumas lanternas chinesas e a decoração natalina, que está por todo o corredor, da entrada até o palco. Atrás de quem canta a parede é coberta por espelhos.

Em frente ao palco há uma pista com um telão em frente, onde se acompanha a letra e as imagens de fundo, que vão de paisagens bucólicas até pequenos vídeos japoneses que interpretam algumas músicas. Há mais mesas do lado esquerdo da pista, e o bar continua para os fundos, onde se encontra uma churrasqueira, mais mesas, máquinas de aposta e quatro boas mesas de sinuca, que nunca ficam desocupadas.

Mas a atração principal é o karaokê. Dezenas de vozes esganiçadas passam pelos microfones todas as noites. Algumas vozes são boas, claro, sempre há exceções. Porém mais do que uma voz bonita, o que se espera dos cantores de ocasião é a performance e os hits. Algumas músicas sempre tocam – Evidências (“chega de mentiras, de negar o meu desejo, eu te quero mais que tudo..”.) sempre é cantada a plenos pulmões por muitos; Fogo e Paixão, do Wando (“você é luz, é raio estrela e luar, manhã de sol, meu iaiá, meu ioiô..”.) sempre arranca uivos da platéia; Hey you, do Pink Floyd, sempre é cantada por Ed, um homem com um comprido rabo de cavalo e um bigode à modo antiga, além da pochete logo abaixo do umbigo; Akira sempre canta sucessos internacionais e músicas japonesas, e é um dos que sempre são ovacionados no palco; Madonna faz sucesso entre as mulheres e o Rei Roberto é cantado em uníssono pela platéia de todas as idades.

A performance vai além do hit. Vale cantar Unchained Melody, música tema de Ghost, interpretando-a como se Maria Bethânia a cantasse, vale um rapaz cantar Blitz com duas backing vocals, como se estivéssemos novamente nos anos 80 vendo Evandro Mesquita destilar toda sua “carioquicidade”. Vale tudo, até cantar esta música do Tim Maia (isso se você considerar que esta música não irá desagradar o público GLS, que também é freqüentador desse microcosmo paulistano em forma de karaokê).

Quem comanda a ordem das músicas é Mama, a matriarca do lugar. É uma senhora japonesa de expressão fechada, o queixo levemente projetado à frente, o rosto pálido carregado de maquiagem, tudo isso intensificando sua pose de má. Como uma boa líder, ela sabe a hora de dar bronca e a hora de dar um sorriso. Há testemunhos que afirmam ela já ter jogado papeizinhos com o número das músicas, puramente por quem ter feito o pedido ser um desafeto seu. Ela anota na comanda do cliente e recebe os papéis com o número da música escolhida. Depois os coloca em ordem e chama a pessoa de quem for a vez. Ela os ordena não por ordem cronológica, mas os arruma de forma que a mesma pessoa não cante muitas vezes seguidas, ajeita tudo para que seja mais justo - lógico que segundo seu raciocínio. Ela faz as leis e ela mesmo as executa. Há sempre discussão em volta dela – pessoas reclamando da demora para chegar suas vezes; pessoas que querem cantar músicas de outros. Mas ela sempre impõe respeito com sua expressão fechada e voz de comando, voz de quem já ouviu muita gente que canta mal reclamar.

Outro fato que sempre causa furor é a presença de Paulo César Pereio, ator importante na história do cinema brasileiro. Quando passa em frente ao palco, rumo às mesas de sinuca, onde passa geralmente toda madrugada, é ovacionado com frases que um dia foram suas:

“Eu te amo, porra!”

“Só toca em mim casando!”

“Só casando!”

Os gritos de Peréio!, as fotos e os cumprimentos são tratados com certa frieza, não antipática, de quem já cansou disso, mas de quem quer sossego. Mas lá no seu canto, na sinuca, raramente alguém o incomoda.

Outros famosos freqüentam o lugar. Vampeta quando visitou o karaokê ouviu inúmeros pedidos para voltar ao Corinthans e salvar o time do ano ruim. A Pitty saiu brava e apressada do karaokê quando viu que estavam cantando um de seus sucessos, a música Equalize. Mas são os anônimos que dão o tom do lugar, e são eles que vão ao palco, invertendo a lógica do show business.

O lugar atravessa a madrugada, sempre gente chegando e indo embora, o que renova a trilha sonora e visual do bar. Há sempre algo novo e insólito para se olhar, alguém divertido para se conversar ou um estranho com quem possa dividir o palco. Conforme a madrugada vai chegando ao fim, o ritmo do entra e sai diminui e o karaokê ganha um tom intimista: a voz de quem canta não compete contra um enorme burburinho de conversas, nem toda roda de amigos é cortada por garçons ensandecidos que não dão conta de atender a todos.

Independente do que houve na noite – brigas de voar cadeira, quatro pessoas beijando o mesmo beijo, músicas ruins, músicas boas, o mau-humor de Mama, os sushis e temakis do chef de comida japonesa que é nordestindo, independente de toda água que corre sem nunca sair do lugar nos quadros espalhados por todo bar, a noite acaba com o nascer do sol e a Choperia Liberdade fecha, quando os postes japoneses do bairro já estão apagados.

domingo, fevereiro 11, 2007

Assenhoreamento

A primeira vez que levitei foi no meu quarto. Eu ouvia música, concentrado em meus pensamentos. Uma sensação de leveza tomou meu corpo, e eu, que fitava o teto, o vi aproximando. Olhei para baixo e vi meu pé deixando de tocar o lençol, que manteve minhas formas como se eu ainda ali estivesse. Não contei para ninguém. Há muito eu mesmo me desacreditara. A segunda vez que aconteceu foi num ônibus, voltando para casa após uma festa. Já havia amanhecido e alguns trabalhadores começavam seu dia útil. Eu olhava pela janela e percebi toda perspectiva mudar. As linhas de meu olhar criaram novos desenhos, novas configurações da paisagem, e percebi estar levitando novamente. Eu não tinha controle nenhum sobre este dom, o que me fazia questionar se realmente era um dom. Logo já estava no banco novamente. Olhei para os lados, mas ninguém me olhava, ninguém percebeu. A terceira vez aconteceu enquanto eu caminhava numa rua do meu bairro. Meus pés deixaram de tocar o chão, mas eu continuei indo para frente, como se ainda caminhasse. Não fiquei assustado dessa vez, mas ainda não tinha nenhum controle sobre a levitação. Estou aguardando a quarta vez. Passo horas no meu quarto, concentrado em levitar. Sou humano, e tudo que me foge ao controle me assusta. Minha mãe acha que estou deprimido. Talvez eu esteja, mas não é por isso que fico trancado em meu quarto. Preciso ser senhor dos meus movimentos, ser dono de mim.

sábado, fevereiro 10, 2007

Cassavetes!!!

Cassavetes em 35 mm, dessa sexta passada até quinta-feira, no CINESESC. Vale muito a pena!

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

exercícios urbanos

http://portalliteral.terra.com.br/

olhem a seção exercícios urbanos deste mês. Um conto meu foi o vencedor =)

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

show blog

Blog de vídeos com uma ótima seleção. Vale a pena.

http://joseantonioleaoramos.blogspot.com/

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

um mar de clichês

As cartas são postas na mesa, uma série de metáforas comuns batem na porta, querem entrar na casa interior, visitar o que nem o espelho vê. Tudo isso lança uma névoa no olhar, que míope não enxerga mais que três palmos. Os dias passam lentos, o tempo é lento, dura o que tem que durar. O lugar comum é confortável por que te protege do novo, te fecha os olhos para um mundo imenso que quer entrar pela janela.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Guinga - Choro pro Zé

Guinga - Choro pro Zé (para ouvir)

Guinga foi uma grande revelação para mim. Um universo sonoro totalmente novo para mim. Nele há influências dos grandes compositores de canção norte-americanos e também dos brasileiros (Cole Porter e Chico Buarque, juntos). Há influência de choro e jazz, de todos os tipos de música brasileira, tudo isso misturado numa obra totalmente original, singular. Fez algumas parcerias importantes, como com o letrista Paulo César Pinheiro, e depois a sua maior parceria, com Aldir Blanc. Provavelmente nas últimas décadas ninguém compõe como ele. Há relatos de alguns grandes, que escancaram seu amor pela música de Guinga - muitos deles o consideram um gênio (talvez um pequeno gênio, já que ele é discreto). Hermeto Pascoal, Ed Motta, Chico Buarque, Toots Thielemans, Paco de Lucia, Michel Legrand, Sérgio Mendes, todos já fizeram declarações enaltecendo o talento de Guinga.

http://www.guinga.com.br

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Sobre a psicanálise - Ricardo Piglia

"(...) ela é uma das formas mais atraentes da cultura contemporânea. Em meio à crise generalizada da experiência, a psicanálise traz uma épica da subjetividade, uma versão violenta e obscura do passado pessoal. Ela é, pois, atraente porque todos aspiramos a uma vida intensa; em meio a nossa vida secularizada e trivial, seduz-nos admitir que, num lugar secreto, experimentamos ou experimentávamos grandes dramas; que quisemos sacrificar nossos pais no altar do desejo; que seduzimos nossos irmãos e lutamos com eles até a morte numa guerra íntima; que invejamos a juventude e a beleza de nossos filhos e que nós também (ainda que ninguém saiba) somos filhos de reis abandonados à margem do caminho da vida. Somos o que somos, mas também somos outros, mais cruéis e mais atentos aos sinais do destino. A psicanálise nos convoca a todos como sujeitos trágicos; nos diz que há um lugar no qual somos sujeitos extraordinários, temos desejos extraordinários, lutamos contra tensões e dramas de grande profundidade, e isso é muito atraente. Assim sendo, e como bem diz Freud, a psicanálise gera resistência e é uma arte da resistência e da negociação, mas também é uma arte da guerra e da representação teatral, intensa e única."

domingo, janeiro 28, 2007

Banal

Mais parecia que ela ia me bater, mas ela recolheu as mãos nos bolsos e andou para longe. Ah, doeu bem mais do que qualquer tapa. Ou seria um soco? Acho que as mulheres podem ser dividas nessas duas categorias: as que dão tapas – delicadas e sutis, as mais perigosas; e as que dão socos – claras e diretas, você sabe em que terreno está pisando. Recapitulando, acho que ela daria um tapa. E não deu, o que achei estranho. Deve ser algo masoquista em mim, mas sempre tento tirá-la do sério, e ela, esperta, me tira antes, sai andando, esconde as mãos que quero em meu rosto de qualquer maneira, tapa ou carícia. Outro dia falei mal de sua mãe. Eu sabia que ela ficaria muito brava, puta mesmo, o suficiente pra mandar eu ir me fuder ou me virar um tapa, mas não, ela me olhou frio e disse que eu só falo merda. Adoro quando ela fala palavrão. Na boca dela tem o peso de um container. Só na boca dela os palavrões ainda não se banalizaram. Nela nada é banal, talvez por isso quero tanto que ela desça do salto, mas parece impossível. Nela nada é banal... Hoje, quando achei que ela me bateria, eu gritei com ela, por nada, e apertei seus braços com o intuito de deixar a marca de meus dedos em seu braço branco de neve. Ela o tirou de minha mão, com uma força que eu não conhecia, e me olhou com aquele olhar frio, velho conhecido. Esperei os palavrões e veio silêncio. Falei algo, balbuciei qualquer palavra pela metade, mas acho que ela nem ouviu, já estava andando para longe. Agora estou esperando o dia seguinte, torcendo para que esta não tenha sido a última oportunidade de irritá-la, de tirá-la do sério. Ainda consigo. Ela não tem o direito de banalizar o mundo inteiro e não descer do pedestal onde a coloquei.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Tom Waits - Alice

Tom Waits - Alice (para ouvir)

Alguma coisa na voz de Tom Waits me diz que ele sofreu bastante. Sua voz é estranha, áspera, rouca. A instrumentação é ainda mais estranha que sua voz - ele tem uma noção musical bem diferente do comum, do que é mais corrente. Mas, estranhamente (sou obrigado a ser repetitivo), algumas músicas dele são extremamente bonitas. Talvez seja a capacidade de dar valor ao que é belo, para quem, talvez, tenha visto muitas coisas feias. Há relatos de soldados, que ao responderem como descreveriam a guerra, disseram que ela é sublime. Há maravilhamento na resposta, na visão, e esse maravilhamento vem do que é gigantesco, do que é tão absurdo, tão aquém ao homem, que só pode ser muito humano. Talvez seja esse o motor de Tom Waits.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

recusa

poderia escrever do convívio com crianças, das chuvas incessantes, dos morros que parecem muros, da coruja voando em direção à tempestade. podia falar dos livros que li, dos filmes, dos pequenos planos, das grandes vontades. mas não quero, ando sem vontade de escrever. mas a única coisa que me deu vontade de escrever foi que tive uma sensação de que 2007 vai doer.