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terça-feira, abril 14, 2009

Nome

Na madrugada,
quando os pombos
voam como morcegos,

e todos os nomes
nos muros não tem rosto
nem voz, nem luz,
apenas sombras de ninguém,
sobras da noite,

e as artes pintadas
só ajudam a erguer outros muros,
são, no fim, apenas outros nomes,
inúteis, o inverso da noite
(que é noite ainda mais escura).

E todos esses nomes não escondem
o fato de que um só nome
realmente
ecoa

e é impronunciável.

domingo, abril 12, 2009

mãos

Uma mão rasga o colchão,
segura meu braço e puxa,
enterrando-me,
cama-cova.
Acordo.

***

Outra mão segura meu rosto,
mão-cega, tateia os lábios,
bochecha, orelha,
chega aos olhos
e entende as pálpebras
ao máximo.
Sonho.

pequena imagem

na janela
a árvore resiste ao vento
e não há nenhum
pássaro que a faça voar

quinta-feira, abril 09, 2009

Canto

Nunca fui capaz
de escrever canções
que pudesse cantar.

Sobraram-me estes versos
de ritmo caduco,
voz de chuva,
de cão, casa queimada
ao rés do chão.

E se pudesse a raiva ter voz,
ou a calma,
alguns pecados ganhariam
perdão.

(estrago, então, minha voz
com cigarros, cerveja,
cachaça.
Coleciono calos,
calafrios
- desato a corda e
me afasto do cais)

The City - Czeslaw Milosz

The city exulted, all in flowers.
Soon it will end: a fashion, a phase, the epoch, life.
The terror and sweetness of a final dissolution.
Let the first bombs fall without delay.

domingo, abril 05, 2009

O artista inconfessável - J.C. de Melo Neto

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.

terça-feira, maio 20, 2008

velharias (cherchez la femme)

Uma surpresa que ainda não aconteceu. Vento que precede chuva ou uma carta sem destinatário, o remetente rabiscado como se a casa ainda fosse esboço. Um arquiteto não saberia projetar esta casa. Talvez um escultor brincando com areia e água do mar. Talvez uma criança empinando pipa, alguém ouvindo um outro, uma música quieta e incessante que ainda não sei cantar. Talvez ela, mesmo que eu espere e espreite esquinas, será uma surpresa.

segunda-feira, abril 28, 2008

velharias (poema que escrevi para um amigo -2006)

poema que escrevi para um amigo


quais migalhas de pele
te alcançaram, e,
na confusão dos teus poros,
se confundiram com a tua própria,
folhas de outono
perdidas entre o ciclo das estações?

qual o círculo vertiginoso da
rotina, fixa, que esconde
seu movimento na mobilidade
dos olhos distantes e secos?

talvez os passos sejam esses
dos seus pés de pássaro
(a asa ou o vento quebrado?)

ou da mão hesitante que
tenta derrubar o vínculo
da violência silenciosa
e sutil,

mas que pára na delicadeza
do tempo e da espera.

domingo, abril 20, 2008

velharias

vontades # 3

quando do chão brota o raio
dos teus passos curtos

- pequenos sustos em lugares escuros –

cria-se em minha memória
um silêncio exato –

logo cessado por meu suspiro,
uma longa onda a se quebrar

terça-feira, abril 15, 2008

mais velharia

pedido ao tempo

há de ser ouvido por mim
seus compassos escuros, no estalo,
e claros, no silêncio

há de ser absorvido nos poros
as gotas de esquecimento
e estrelas de memória
que correm em suas lacunas

há de ser construído uma enorme
estalactite ou castelo de areia,
iguais na forma
e distintos na pedra,
suas duas faces

há de ser exato nas mãos
e transbordante nos olhos,
provendo outra pele
a cada piscar de pálpebra
(acendendo e apagando o mundo,
testando sua continuidade)


há, por fim, de emprestar
sua constância aos meus gestos,
aos meus gritos,
e sua fluência à verborragia
de meu silêncio
(e que se desfaça em seu fio
outro fio, mas fino e frio,
que ligue meus olhos a todos os nomes)

sábado, março 29, 2008

na falta de tudo, o antigo

resolvi vasculhar a velharia e mostrar coisas antigas, que escrevi há muito, quando eu era outro.

começando com um texto duma seriezinha chamada Cherchez la femme (pequenos retratos)

***

Seus olhos têm qualidade de noite: se mostram ao esconder, firmes como a coluna de luz da lua à minha janela. E não qualquer noite, algo nítido como o ar após a chuva. O corpo anda em linha reta, pois ignora as curvas do mundo, um quase flutuar. E, como a noite, é curiosa, argüi, questiona, te olha séria e depois sorri, como se tudo fosse uma grande brincadeira. Perguntariam-me: como qualidade de noite, se ela é dourada? Eu diria que não souberam a ver – tem muito de noite no sol, e tudo contém também aquilo que esconde

quarta-feira, março 05, 2008

na falta de tudo, trechos

Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño (os personagens falam sobre um sonho da ex-namorada):

"Era um sonho cheio de cores, com uma batalha no fundo, uma batalha que se distancia e que, ao se distanciar, arrasta consigo todas as interpretações. Mas Norman respondeu: sonhou com os filhos que não tivemos. Está me gozando, falei. Era esse o significado do sonho. A batalha que distancia, para você, eram os filhos que vocês não tiveram? Mais ou menos, Norman respondeu. Aquelas sombras que combatiam. E as cores? O que resta, Norman disse, a simples abstração do que resta."

quarta-feira, dezembro 12, 2007

O descanso do fotógrafo

Falava de sua vida, durante um descanso merecido, após horas de pé, o fotógrafo mais velho. O mais novo escutava, tendo de aproximar o ouvido para distanciar os gritos adolescentes dos formandos e da música. O mais novo dos dois fazia apenas algumas perguntas, para rumar a conversa.
“Meu filho mais velho não vejo faz anos. Já é homem, já. Trinta anos, tem filho. Sim, sim, conheço meu neto. Mas não vou atrás. Ele sabe onde moro, quando quer, me procura. Culpa da minha mulher, se meteu com um homem barra-pesada. É isso aí, me deixou. Paguei pensão e tudo. Para homem você paga pensão até os vinte um, para mulher até os dezoito. Engraçado, né? É ao contrário. E se fizer faculdade, tem que pagar os estudos até o fim. Não, ele não fez não. Depois de um tempo, que ela me deixou, ela começou a ligar, me pedindo ajuda pra se livrar do barra-pesada. Mas eu não ajudei não, o que que eu ia fazer? E por causa dele eu não via meu filho. Mas teve uma vez que eu liguei pra ela, falando que ia lá ver o moleque. Ela disse que o cara estava lá, que era pra eu não ir. Eu disse que ia, não me importava com o cara, que eu ia ver meu filho de qualquer jeito. Chamei um amigo que era policial. Hoje é advogado, faz tempo que não vejo também. Ele ficou na esquina, segurando a arma do lado da cintura. Disse que dali, se o cara tentasse qualquer coisa era pá!, tiro no meio da cabeça. Fui até o portão e fiquei gritando o nome do meu filho, até que ele veio. O barra-pesada nunca apareceu. Esse meu amigo era gente boa, olha o que ele fez por mim. Eu devia procurar ele.”
O fotógrafo mais velho coçava os olhos insistentemente, no final da conversa. Depois de um tempo de silêncio, levantou-se e disse que ia ao banheiro. Deu um tapinha no ombro do mais novo, antes de seguir pelo labirinto de mesas e cadeiras.

sexta-feira, agosto 03, 2007

vontades de Bruno

Vender a Parati e comprar uma moto, vento no rosto. A intenção primeira, comprar este carro por ser carro de família, não existe mais. Não existe mais bebê, mulher, ele mesmo como era até pouco tempo. Novos tempos exigem vento. E assim que subir na moto, escolher a esmo uma estrada, mochila nas costas, rumo incerto, rumo preciso de incertezas. E não avisar ninguém, que já não há mais importâncias. As pessoas que importam deixaram de o fazer. Pensa que seria romântico demais, sonhador demais, mas o que o pragmatismo fez por ele, até agora? O que as noites perdidas em trabalhos cansativos fizeram por ele? O que a poupança guardou? Os carnês das Casas Bahia? O consórcio do carro usado? Sabe apenas que quer o contrário. E vento.

terça-feira, julho 31, 2007

vontades de Luíza

Primeiro, passar do alto apartamento a uma casa, térrea (caminho inverso, será?). Depois se livrar dos abajures estranhos, comprados em tardes tediosas das quais nem mais se recorda, e substituí-los por plantas (menos luz produzida, mais luz necessitada). E agraciá-las com sua atenção, com o mesmo afinco com que lia a coluna social, buscando seu nome, notícias pequenas, que alimentavam algo que agora não tem mais fome. Depois, ouvindo música junto às plantas, num quintal pequeno, com o espaço de um balanço e uma casa de cachorro, repensar tudo aquilo que ensinou a seu filho, que já está chegando a idade de avaliar todo esse ensinamento e se voltar contra ele. E assim que aprender a língua das plantas, tentar as flores, muito mais delicadas e efêmeras, com seus caprichos e humores. E depois das flores, um cachorro, aquele que proibiu a seu filho. E só depois, depois de todo esse reaprendizado, desbrutalização, voltar-se para si, com novos espelhos.


sexta-feira, junho 15, 2007

Quase Susto

http://www.comartejr.com.br/originais/texto.php?id=55


Conto Quase Susto. Vote e comente, para ajudá-lo a ser publicado numa revista.

quarta-feira, abril 25, 2007

Grande Sertão

Acho incrível, a surpresa de encontrar algo que você já pensou na voz de outro, seja gente vivida ou gente criada, como o trecho que vou citar, do Grande Sertão: Veredas:

""Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos" - me explicou o compadre meu Quelemém. Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece - só rara vez se consegue se subir fora dela, feito um milagre: peixinho pediu. Por que? Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."



quarta-feira, abril 18, 2007

Hotel Toffolo - Drummond

E vieram dizer-nos que não havia jantar.
Como se não houvesse outras fomes
e outros alimentos.

Como se a cidade não nos servisse o seu pão
de nuvens.

Não, hoteleiro, nosso repasto é interior
e só pretendemos a mesa.
Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras.
Tudo se come, tudo se comunica,
tudo, no coração, é ceia.

sexta-feira, abril 13, 2007

Czeslaw Milosz

Ganhei o Collected Poems do Czeslaw Milosz, uma bíblia com todas as poesias, de 1931-2001 e só agora, depois de alguns meses, comecei a lê-lo com mais calma. Os poemas são um misto de amargura e busca de redenção, momentos de maravilhamento e terror, momentos de muita fé católica e outros de descrença. Milosz viveu intensamente a segunda guerra mundial e a guerra nunca terminou, para ele. Vou traduzir alguns trecho...

“O verdadeiro inimigo do homem é a generalização.

O verdadeiro inimigo do homem, a assim chamada História,

Atrai e terroriza com seus números plurais.

Não acredite. Esperta e traiçoeira,

A História não é, como disse Marx, anti-natureza,

E se uma deusa, uma deusa do cego destino.”

(Lecture IV)


“Eu a amava, sem saber quem ela realmente era.

Eu infligi dor a ela, buscando minha ilusão.

Eu a traí com outras mulheres, embora fiel somente a ela.

Nós vivemos muita felicidade e tristeza.

Separações, resgates milagrosos. E agora, estas cinzas.

E o mar quebrando na orla enquanto eu caminho pela rua vazia.

E o mar quebrando na orla. E o sofrimento comum.


Como resistir ao nada? Que poder

Preserva o que um dia foi, se a memória não perdura?

Porque eu lembro de pouco. Eu lembro de tão pouco.

De fato, momentos reconstruídos significariam o Julgamento Final

Que é adiado diariamente, por Misericórdia, talvez.


Fogo, libertação da gravidade. Uma maçã não cai,

Uma montanha move-se de seu lugar. Além da cortina de fogo,

Um cordeiro fica no prado de formas indestrutíveis.

As almas no Purgatório queimam. Heráclito, louco,

Vê as chamas consumirem as fundações do mundo.

Acredito na Ressurreição da Carne? Não destas cinzas.”

(Da separação de minha mulher, Janina)


“Imperfeito e ciente disso. Desejando grandeza,

Capaz de reconhecer grandeza onde quer que esteja,

E não exatamente, apenas em parte, clarividente,

Eu sabia o que era guardado para homens menores como eu:

Uma festa de breves esperanças, uma passeata dos orgulhosos,

Um torneio de corcundas, literatura.”

(Uma confissão)

quinta-feira, abril 12, 2007

imaginações improvisadas # 4

Gestos desencontrados que mais pareciam trens descarrilhando. O som era monótono, música de rádio AM às seis da manhã. Gosto de guarda-chuva na boca, goteiras por todo corpo. A cama ainda desarrumada. O lavabo a uma gota de transbordar (adianto que não transbordou). Quando a porta bateu atrás de suas costas, o sol já batia no teto do céu. Ficaram no quarto abraços perdidos e beijos desperdiçados (sem contar o corpo morto).