quarta-feira, outubro 14, 2009

mutação

só pensando (e lembrando) em como o mesmo sentimento vai mudando como um sonho, que dispensa regras de continuidade e lógicas simples. Um dia é cansaço, no outro saudade, depois raiva, aí volta saudade, aí é saco cheio, depois sorriso discreto, esperança, que vira luto. Isso nos dias que você consegue dar nomes e limitar o que está sentindo. Mas é constante e é um sentimento só.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Rastros

Como seguir rastros de tornados,
determinar início e fim,
encontrar caminho no caos,
que só o centro,
o olho (“The I of the hurricane”),
vê.

Tarefa impossível que a escrita
confunde em pistas falsas.
outras mãos escrevem a história,
não estas.
Outros olhos fixos no centro do giro,
não estes.
(quase uma comédia com Peter Sellers
ou uma foto de Koudelka –
estar fora do lugar como
o máximo do estar)

Como andar por ruas iguais,
entre adolescentes e executivos iguais,
todos com cabelos iguais e o mesmo olhar.
E o medo de tudo ser espelho ou
janela para um tempo dividido,
irreconciliável.

Um tempo em que eu não mais
me distanciasse, nem tivesse
o faro dum detetive livresco
ou qualquer herói eleito.
Este tempo quebrado,
de trechos de filmes
(imagens soltas sem sopro ou surpresa),
de frases perdidas, imperdoáveis
(Hamlet escalando a montanha mágica,
Leopold Bloom caminhando pelo Rio de Janeiro).
O Tempo que se pensava indivisível,
o maior e primordial átomo,
agora em estilhaços
(ou esteve despedaçado, ou estará,
quem sabe? Quem está fora do pesadelo
e realmente sabe?
Como aquela vez em que estive num jardim sem vento
ou na pedra que apontava para morros milhares de metros
abaixo.)

Pensar então fora do tempo
– impossível como perseguir tornados –
mas tentamos, eu tento.

E separo-me de todos os outros,
dos espelhos, do tornado, das janelas,
gerânios, guerras, gueixas, carros,
costas e mares, amores, peixes, flechas,
e choros.
Separo-me das chaves, das vistas, cheiros, dores,
dia-a-dia, poemas pela metade, noites e mortes
pela metade...
Tudo se misturando até perder os nomes,
as linhas divisórias, anti-geografia
da linguagem, anti-literatura
das bocas, o calar da história
dos ouvidos.

Até que desapareçam todos os rastros do tornado.
Quando a calmaria baixar sobre as cidades
e cegar os postes e faróis,
não haverá nem olho para que isso exista,
e o tempo voltará a reinar,
imperativo.

sábado, outubro 10, 2009

Mantra

Estar perdido nas próprias palavras,
quando se acorda logo de manhã e
o sol já desistiu da janela.
Nenhum traço de luz nos lençóis,
nem de voz no vão do quarto.

Cada vogal toma seu tempo
e erra.
Cada consoante interrompe o ar
e erra.

Errante entre o espaço exíguo,
(a vida às vezes venta leve
e violenta os olhos cansados)
exilado, exímio em não saber
estar, estando como pode,
até não mais caber em si.
Buscar um nós que não mais está...

Ao tatear palavras tatuadas no corpo,
no torso arqueante,
que respira a vida leve e a devolve
pesada, pesada.

Pé após pé,
o mantra que canta
enquanto a melodia
se cansa.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Robert Capa por Michael Mann

Comecei a postar no blog da livraria cultura

http://cultura.updateordie.com

terça-feira, outubro 06, 2009

"Cuántas luces dejaste encendidas" de Hugo Gutierrez Vega

Un amor sentencioso alzó la mano
y señaló el camino hacia lo incierto,
hacia lo que no fue, hacia esa nada
que en la mitad del pecho va latiendo
como el corazón falso de la vida, vuelto piedra
y la piedra en el campo va gritando.

La cantina y su rincón oscuro,
las palabras cansadas de rogarle,
el círculo dejado por la copa,
la pedida canción, el abandono
y ese perdido amor con el tequila
servido ya cuando la noche pide
sólo one for my baby and
one more for the road
.

Todo se junta en la canción dolida,
hay un stormy weather
y a la casa encendida volverán los amores;
ella regresa y si no regresara
intentar apagar todas las luces
será tarea emprendida por la muerte.
"El esplendor tan encendido antaño"
no volverá y no hay que entristecerse,
quedaron muchas luces encendidas
y se amanece siempre entre sus brazos.

terça-feira, setembro 29, 2009

pedido ao tempo

há de ser ouvido por mim
seus compassos escuros, no estalo,
e claros, no silêncio

há de ser absorvido nos poros
as gotas de esquecimento
e estrelas de memória
que correm em suas lacunas

há de ser construído uma enorme
estalactite ou castelo de areia,
iguais na forma
e distintos na pedra,
suas duas faces

há de ser exato nas mãos
e transbordante nos olhos,
provendo outra pele
a cada piscar de pálpebra
(acendendo e apagando o mundo,
testando sua continuidade)


há, por fim, de emprestar
sua constância aos meus gestos,
aos meus gritos,
e sua fluência à verborragia
de meu silêncio
(e que se desfaça em seu fio
outro fio, mas fino e frio,
que ligue meus olhos a todos os nomes)

quinta-feira, setembro 24, 2009

Da janela do quarto

Da minha janela vejo,
em primeiro plano, a árvore,
nascida em solo insólito,
e, longe, onde a chuva cessa,
o prédio abandonado.

Mais do que a própria chuva,
inconstante em sua semelhança,
ligam-se os dois elementos enquadrados
na esquadria da janela:

ambos falam de um passado esfumaçado,
sente-se o abandono nas folhas
onde palavra nenhuma foi escrita,
e nos galhos, raízes aéreas, perdidas
no desterro do ar.

Sente-se vida no prédio abandonado,
nas plantas abismando o concreto,
vitória do abstrato, onde não havia
imaginação nem viço,
fantasmas do que ali já se passou.

Hoje a chuva fez muito, ligando para mim
as imagens que nunca vi, como se a janela
da sala fosse na verdade a de um trem,
que passa e esquece...

(a soma de dois elementos, somando
um terceiro, o escondido, o escuro
de dentro, um sumiço, um possível...)

quarta-feira, setembro 23, 2009

Fome

Historinha contada no Mad Men dessa semana:

Algumas cobras podem ficar meses sem comer nada, mas quando conseguem alguma coisa, elas estão com tanta fome que sufocam enquanto estão comendo.

domingo, setembro 20, 2009

Troca

Substituir uma voz,
Raiz dos problemas e da ânsia.
Trocar um abraço por outro,
Novo, outras mãos que procuram
A mesma fome, insubstituível.

Outros olhos olhando o mesmo.
Novos passos conhecendo os pés
Cansados da instabilidade da água,
Buscando terra, querendo novas pistas
De vôo, marcando outras trilhas
Em areias cambiantes.

Outro peito onde pousará a cabeça
Cansada dos sonhos escuros,
(será que ainda sonha comigo?
- o rosto do passado no sem tempo
Do sono – eu a invadir camas estranhas)

E agora ao cruzar as ruas
De um novo labirinto,
Perdida ou encontrada na velha cidade
Que despertou de novo,
Nomeando cada árvore para outro ouvido,
Rindo dos cachorros trôpegos,
Esquivando-se dos carros bêbados,
Sorrirá por um amor escolhido
Entre milhões, entrevado até os postes
Iluminarem estas novas decisões.

(Quantos relógios são necessários
Para se apagar um rosto?
Quantos sóis boiando no céu
Para se escurecer uma voz?
Quantas estradas para enterrar
Os pés cansados, as mãos hesitantes?)

Tudo de novo, a mesma história,
Mesmo medo, desejos e discórdias,
Diásporas e depois o começo, igual,
Agora com novo nome.

terça-feira, setembro 15, 2009

na amurada

saber-se apenas
uma fresta, luz recortada

“o silêncio das janelas”
e o verbo na amurada

as ondas a explodir
no convés, nonada

tempestades ínfimas
em paredes opacas

sem fotos, sem quadros
nem passos, jangadas

náufragas no interior
de uma cama larga

vazia se não fosse um
no início de uma saga

sexta-feira, setembro 11, 2009

outro auto-retrato

pirotecnias do silêncio
em combustão de lago
ou melhor
"educado pela pedra"

terça-feira, setembro 08, 2009

pequeno auto-retrato

o que meus traços não mostram
é que os limites que me moldam
nada mais são que moinhos de vento
combatendo cavaleiros reais

quarta-feira, setembro 02, 2009

Refuge of the road - Joni Mitchell



I met a friend of spirit/ He drank and womanized/ And I sat before his sanity
I was holding back from crying/ He saw my complications/ And he mirrored me back simplified/ And we laughed how our perfection/ Would always be denied/ "Heart and humor and humility"/ He said "Will lighten up your heavy load"/ I left him for the refuge of the roads/ I fell in with some drifters/ Cast upon a beachtown
Winn Dixie cold cuts and/ highway hand me downs/ And I wound up fixing dinner/ For them and Boston Jim/ I well up with affection/ Thinking back down the roads to then
The nets were overflowing/ In the Gulf of Mexico/ They were overflowing in the
refuge of the roads/ There was spring along the ditches/ There were good times in the cities/ Oh, radiant happiness/ It was all so light and easy/ Till I started analyzing/ And I brought on my old ways/ A thunderhead of judgment was/ Gathering in my gaze/ And it made most people nervous/ They just didn't want to know/ What I was seeing in the refuge of the roads/ I pulled off into a forest/ Crickets clicking in the ferns/ Like a wheel of fortune/ I heard my fate turn, turn turn/ And I went running down a white sand road/ I was running like a white-assed deer/ Running to lose the blues/ To the innocence in here/ These are the clouds of Michelangelo/ Muscular with gods and sungold/ Shine on your witness in the/ refuge of the roads/ In a highway service station/ Over the month of June/ Was a photograph of the earth/ Taken coming back from the moon/ And you couldn't see a city/ On that marbled/ bowling ball/ Or a forest or a highway/ Or me here least of all/ You couldn't see these cold water restrooms/ Or this baggage overload/ Westbound and rolling taking/ refuge in the roads

segunda-feira, agosto 24, 2009

cherchez la femme # 11

Ela acredita nos sonhos. Não o óbvio, que os sonhos carregam significados que dizem respeito a algo muito fundo em você, o submerso emergindo quando se deita no escuro do ser. O sonho - o ser não sendo, o quando sem tempo. Ela conta os sonhos como fatos, fotos que são quase inegáveis, o ver não vendo. E quando acorda, o fluxo das imagens não param, só se transformam em palavras vivas, uma após a outra, sonhos vividos. E se alguém matou outro no sonho, é um assassino na vida real. Se alguém pintou um quadro, é um artista na vida real. Mas quando a vida real é um pesadelo, ela gosta de pensar que os sonhos só sabem mentir.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Ao redor

Quando eu era mais jovem
e a esperança era uma maçã

as palavras se escolhiam
sem se esconder nas ruínas
da fala, das falhas.

Tudo que escrevia na parede
brilhava como neon
num vórtice que se assemelhava
ao rodar dos dias
ao redor do sol.

Quando ainda nem
cogitava o velho
nem a quebra do mar
- marasmo, maresia,
amar...

Eu sabia dos braços
e pernas das garotas
das bocas e olhos,
todos os fragmentos
que não formavam um todo,
toldo sobre o olhar.

(agora crianças descem
a rampa em círculo
e sobem as escadas fixas,
que mesmo cheirando a
madeira antiga,
levam a algo que é eternamente
novo)

quarta-feira, agosto 05, 2009

melhor resposta

Perguntaram para Gary Winogrand por que ele fotografava, e ele respondeu:

Porque quero ver como determinada coisa fica quando fotografada.

quinta-feira, julho 30, 2009

frase #2

cada flecha atirada para o alto sempre encontra um alvo

frase #1

quando uma porta se fecha, uma janela se cega

quinta-feira, abril 23, 2009

ditado Obijwe

sometimes i go about in pity for myself, and all the while, a great wind carries me across the sky

quarta-feira, abril 22, 2009

catavento e girassol



Meu catavento tem dentro o que há do lado de fora do teu girassol
Entre o escancaro e o contido, eu te pedi sustenido e você riu bemol
Você só pensa no espaço, eu exigi duração
Eu sou um gato de subúrbio, você é litorânea

Quando eu respeito os sinais vejo você de patins vindo na contramão
Mas quando ataco de macho, você se faz de capacho e não quer confusão
Nenhum dos dois se entrega, nós não ouvimos conselho
Eu sou você que se vai no sumidouro do espelho

Eu sou do Engenho de Dentro e você vive no vento do Arpoador
Eu tenho um jeito arredio e você é expansiva, o inseto e a flor
Um torce pra Mia Farrow, o outro é Woody Allen
Quando assovio uma seresta você dança havaiana

Eu vou de tênis e jeans, encontro você demais, scarpin, soiré
Quando o pau quebra na esquina, cê ataca de fina e me ofende em inglês
É fuck you, bate bronha e ninguém mete o bedelho
Você sou eu que me vou no sumidouro do espelho

A paz é feita num motel de alma lavada e passada
Pra descobrir logo depois que não serviu pra nada
Nos dias de carnaval aumentam os desenganos
Você vai pra Parati e eu pro Cacique de Ramos

Meu catavento tem dentro o vento escancarado do Arpoador
Teu girassol tem de fora o escondido do Engenho de Dentro da flor
Eu sinto muita saudade, você é contemporânea
Eu penso em tudo quanto faço, você é tão espontânea

Sei que um depende do outro só pra ser diferente, pra se completar
Sei que um se afasta do outro, no sufoco, somente pra se aproximar
Cê tem um jeito verde de ser e eu sou meio vermelho
Mas os dois juntos se vão no sumidouro do espelho