terça-feira, maio 20, 2008

velharias (cherchez la femme)

Uma surpresa que ainda não aconteceu. Vento que precede chuva ou uma carta sem destinatário, o remetente rabiscado como se a casa ainda fosse esboço. Um arquiteto não saberia projetar esta casa. Talvez um escultor brincando com areia e água do mar. Talvez uma criança empinando pipa, alguém ouvindo um outro, uma música quieta e incessante que ainda não sei cantar. Talvez ela, mesmo que eu espere e espreite esquinas, será uma surpresa.

segunda-feira, abril 28, 2008

velharias (poema que escrevi para um amigo -2006)

poema que escrevi para um amigo


quais migalhas de pele
te alcançaram, e,
na confusão dos teus poros,
se confundiram com a tua própria,
folhas de outono
perdidas entre o ciclo das estações?

qual o círculo vertiginoso da
rotina, fixa, que esconde
seu movimento na mobilidade
dos olhos distantes e secos?

talvez os passos sejam esses
dos seus pés de pássaro
(a asa ou o vento quebrado?)

ou da mão hesitante que
tenta derrubar o vínculo
da violência silenciosa
e sutil,

mas que pára na delicadeza
do tempo e da espera.

domingo, abril 20, 2008

velharias

vontades # 3

quando do chão brota o raio
dos teus passos curtos

- pequenos sustos em lugares escuros –

cria-se em minha memória
um silêncio exato –

logo cessado por meu suspiro,
uma longa onda a se quebrar

terça-feira, abril 15, 2008

mais velharia

pedido ao tempo

há de ser ouvido por mim
seus compassos escuros, no estalo,
e claros, no silêncio

há de ser absorvido nos poros
as gotas de esquecimento
e estrelas de memória
que correm em suas lacunas

há de ser construído uma enorme
estalactite ou castelo de areia,
iguais na forma
e distintos na pedra,
suas duas faces

há de ser exato nas mãos
e transbordante nos olhos,
provendo outra pele
a cada piscar de pálpebra
(acendendo e apagando o mundo,
testando sua continuidade)


há, por fim, de emprestar
sua constância aos meus gestos,
aos meus gritos,
e sua fluência à verborragia
de meu silêncio
(e que se desfaça em seu fio
outro fio, mas fino e frio,
que ligue meus olhos a todos os nomes)

sábado, março 29, 2008

na falta de tudo, o antigo

resolvi vasculhar a velharia e mostrar coisas antigas, que escrevi há muito, quando eu era outro.

começando com um texto duma seriezinha chamada Cherchez la femme (pequenos retratos)

***

Seus olhos têm qualidade de noite: se mostram ao esconder, firmes como a coluna de luz da lua à minha janela. E não qualquer noite, algo nítido como o ar após a chuva. O corpo anda em linha reta, pois ignora as curvas do mundo, um quase flutuar. E, como a noite, é curiosa, argüi, questiona, te olha séria e depois sorri, como se tudo fosse uma grande brincadeira. Perguntariam-me: como qualidade de noite, se ela é dourada? Eu diria que não souberam a ver – tem muito de noite no sol, e tudo contém também aquilo que esconde

quarta-feira, março 05, 2008

na falta de tudo, trechos

Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño (os personagens falam sobre um sonho da ex-namorada):

"Era um sonho cheio de cores, com uma batalha no fundo, uma batalha que se distancia e que, ao se distanciar, arrasta consigo todas as interpretações. Mas Norman respondeu: sonhou com os filhos que não tivemos. Está me gozando, falei. Era esse o significado do sonho. A batalha que distancia, para você, eram os filhos que vocês não tiveram? Mais ou menos, Norman respondeu. Aquelas sombras que combatiam. E as cores? O que resta, Norman disse, a simples abstração do que resta."

terça-feira, fevereiro 26, 2008

na falta de tudo, nada

O silêncio já acompanha o tempo por meses. Quando há falta do novo, o velho se cansa. As palavras, gastas por repetição, ficam fora de foco. É olhar o mundo como se ele fosse um álbum de fotos antigas. É esperar que uma estação chegue antes do tempo.

(esses dias os pássaros cantaram na janela, e só assim percebi sua ausência de meses)


espero que tudo isso seja como aves migratórias.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Hugo Gutierrez Vega (quem se habilita a comprar um livro dele diretamente do México?)

Análisis de una situación doméstica

Como si no supieras que la noche
toca ya en los antiguos ventanales,
como ignorando al astro que destruye
las risas de la tarde,
suavemente
persistes en la feliz tarea
de remendar las cosas, ocultar deterioros
y presentar las almas de la casa
"rotitas, pero limpia", preparadas
para la prueba de los buenos días.
Tejes el entramado de este clima
donde crecen los seres. Nunca notas
que esta bella y terrible serpiente de las horas
se va enroscando al fondo del pasillo.
Me dices con razón que es más bien bella
(nuestro miedo está al fondo del segundo adjetivo).
Pasan los días, se cierran los caminos
y nuestra condición construye puentes.
Corre el río, la tarde se diluye,
el crepúsculo invade las ventanas,
los bellos adjetivos reconstruyen
los cambios de la luz, se multiplican
los signos de la paz y tú sonríes
?esa sonrisa nos levanta el alma?
cuando la tarde oculta sus miradas.
Y como nada pasa, izamos velas
para cruzar el golfo de la noche.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

O descanso do fotógrafo

Falava de sua vida, durante um descanso merecido, após horas de pé, o fotógrafo mais velho. O mais novo escutava, tendo de aproximar o ouvido para distanciar os gritos adolescentes dos formandos e da música. O mais novo dos dois fazia apenas algumas perguntas, para rumar a conversa.
“Meu filho mais velho não vejo faz anos. Já é homem, já. Trinta anos, tem filho. Sim, sim, conheço meu neto. Mas não vou atrás. Ele sabe onde moro, quando quer, me procura. Culpa da minha mulher, se meteu com um homem barra-pesada. É isso aí, me deixou. Paguei pensão e tudo. Para homem você paga pensão até os vinte um, para mulher até os dezoito. Engraçado, né? É ao contrário. E se fizer faculdade, tem que pagar os estudos até o fim. Não, ele não fez não. Depois de um tempo, que ela me deixou, ela começou a ligar, me pedindo ajuda pra se livrar do barra-pesada. Mas eu não ajudei não, o que que eu ia fazer? E por causa dele eu não via meu filho. Mas teve uma vez que eu liguei pra ela, falando que ia lá ver o moleque. Ela disse que o cara estava lá, que era pra eu não ir. Eu disse que ia, não me importava com o cara, que eu ia ver meu filho de qualquer jeito. Chamei um amigo que era policial. Hoje é advogado, faz tempo que não vejo também. Ele ficou na esquina, segurando a arma do lado da cintura. Disse que dali, se o cara tentasse qualquer coisa era pá!, tiro no meio da cabeça. Fui até o portão e fiquei gritando o nome do meu filho, até que ele veio. O barra-pesada nunca apareceu. Esse meu amigo era gente boa, olha o que ele fez por mim. Eu devia procurar ele.”
O fotógrafo mais velho coçava os olhos insistentemente, no final da conversa. Depois de um tempo de silêncio, levantou-se e disse que ia ao banheiro. Deu um tapinha no ombro do mais novo, antes de seguir pelo labirinto de mesas e cadeiras.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Paint como eu pinto?

Gostaria de dar uma dica: o blog do Vitor Brandt - Paint como eu pinto?

Desenhos feitos no antigo e saudoso paintbrush, usando o mouse e nada mais.

muito bom!

na falta de palavras...

Como ando escrevendo pouco, muito pouco, resolvi adicionar um paliativo: aí do lado vocês podem achar coisas que ando escutando no last.fm

façam bom proveito

quarta-feira, novembro 21, 2007

Conto de natal

Muitos imaginam poder voar e deixam janelas para abraçar o chão.

quarta-feira, novembro 14, 2007

os sinais

Impossível não ver em cada texto um recado. Nem imaginar que os gestos carregam tanto mais do que o ar movido em seu breve movimento. Há símbolos demais no mundo. Uma árvore, se vista na rua, é uma árvore. Se vista numa fotografia, ao laod de uma criança, é a vida, suas raízes, o passado e o futuro. Anoto um trecho qualquer em meu caderno. Posso apenas ter gostado do som daquelas palavras postas umas atrás das outras. Mas se divido isso com alguém, pode ser o sinal da minha felicidade ou tristeza, do meu desespero escondido que se mostra como a ponta de um iceberg. Os próprios icebergs se tornaram outras coisas que não apenas um imenso bloco de gelo (que até pouco tempo atrás era eterno). E esse texto aqui não é signo de nenhuma outra coisa, apenas uma constatação de que o mundo está cada vez mais pesado, cada coisa está se multiplicando em mil outras.

segunda-feira, setembro 17, 2007

fotos!!!

Fotos tiradas numa looooonga madrugada do Aeroporto Internacional de Cuiabá

http://s183.photobucket.com/albums/x70/guilecf/Aeroporto%20de%20Cuiaba/

quinta-feira, setembro 06, 2007

think of me

Lay your head where my heart used to be
Hold the earth above me
Lay down in the green grass
Remember when you loved me

Come closer don't be shy
Stand beneath a rainy sky
The moon is over the rise
Think of me as a train goes by

sexta-feira, agosto 24, 2007

Deus e o diabo na terra da morte

Olha só, fizeram a contagem de quantos Deus e o diabo mataram, segundo a Bíblia:

http://pedrodoria.com.br/2007/08/24/quem-matou-mais-deus-ou-sata/

terça-feira, agosto 21, 2007

segunda-feira, agosto 13, 2007

respondendo aos comentários (na verdade, apenas um)

A diferença de aprender e desaprender é, neste caso, questão de linearidade - aprender tem uma conotação de ir para frente. Desaprender seria dar alguns passos para atrás, refazer algo.

lições

desaprendendo o guilherme que roubou tudo aquilo atrás do nome

sexta-feira, agosto 03, 2007

vontades de Bruno

Vender a Parati e comprar uma moto, vento no rosto. A intenção primeira, comprar este carro por ser carro de família, não existe mais. Não existe mais bebê, mulher, ele mesmo como era até pouco tempo. Novos tempos exigem vento. E assim que subir na moto, escolher a esmo uma estrada, mochila nas costas, rumo incerto, rumo preciso de incertezas. E não avisar ninguém, que já não há mais importâncias. As pessoas que importam deixaram de o fazer. Pensa que seria romântico demais, sonhador demais, mas o que o pragmatismo fez por ele, até agora? O que as noites perdidas em trabalhos cansativos fizeram por ele? O que a poupança guardou? Os carnês das Casas Bahia? O consórcio do carro usado? Sabe apenas que quer o contrário. E vento.